Portugal encontra-se numa posição singular neste novo paradigma. Nunca tivemos, como agora, uma combinação tão favorável de energia renovável competitiva, maturidade regulatória e capacidade técnica. Esta realidade já está a alterar profundamente a forma como investidores, promotores e gestores de ativos avaliam projetos imobiliários.

A energia deixou de ser apenas um custo operacional. Tornou-se um componente direto da valuation. Um edifício eficiente, com produção própria de energia, com baixa dependência da rede e alinhado com critérios ESG, apresenta hoje menor risco financeiro, maior liquidez e maior atratividade junto do capital institucional.

Nos últimos meses, tenho observado este fenómeno de forma muito clara em diferentes segmentos do mercado. Nos data centers, a decisão de investimento começa na análise de acesso à energia verde estável, barata e escalável. Na logística, os grandes operadores privilegiam plataformas com neutralidade carbónica e contratos de energia de longo prazo. No residencial, os compradores e inquilinos estão cada vez mais atentos a eficiência térmica, consumos e custos energéticos. Na indústria, projetos só avançam se garantirem competitividade energética a 20 ou 30 anos.

Esta transformação está a redesenhar os mapas de investimento. Localizações que antes eram secundárias ganham protagonismo por oferecerem melhor acesso a redes elétricas, capacidade de produção renovável, espaço para infraestruturas e enquadramento ambiental favorável. O interior do país, muitas vezes esquecido, começa a surgir como território estratégico para projetos industriais, tecnológicos e logísticos que dependem fortemente de energia limpa.

A sustentabilidade deixou também de ser apenas uma exigência regulatória ou uma bandeira reputacional. É hoje um instrumento de gestão de risco. Um ativo não alinhado com a transição energética enfrenta maiores custos de financiamento, menor interesse do mercado e risco acelerado de obsolescência.

Portugal tem uma oportunidade rara de alinhar a sua estratégia energética com o seu desenvolvimento imobiliário. A articulação entre energia renovável, planeamento urbano e investimento privado pode criar uma situação única histórica de crescimento económico, atração de capital e valorização territorial.

O imobiliário passa a ser, assim, uma peça central da transição energética. Cada novo projeto é uma decisão económica, ambiental e social. Os investidores que compreenderem esta mudança mais cedo serão os que liderarão o próximo ciclo do mercado.

O futuro do imobiliário já não se constrói apenas em betão e localização. Constrói-se em kilowatts, eficiência, resiliência e visão estratégica.