O incentivo de 180 milhões de euros atribuído pelo Estado ao projeto da Lifthium Energy, para a futura refinaria de lítio em Estarreja, é uma dessas notícias. Não apenas pelo montante envolvido, mas pelo que representa num momento particularmente exigente para a indústria europeia e para a transição energética.
Nos últimos anos, o discurso sobre lítio em Portugal esteve muitas vezes associado à extração, à polémica territorial ou à perceção de risco ambiental. Este projeto coloca o foco noutro ponto da cadeia de valor, aquele que verdadeiramente cria valor industrial, tecnológico e estratégico: a refinação e a integração no ecossistema europeu das baterias. É aqui que se decide quem capta valor e quem fica apenas com a matéria-prima.
A assinatura do contrato, conduzida pela AICEP, surge num contexto que a própria empresa reconhece como mais desafiante. O mercado do lítio arrefeceu, a Europa vive uma fase de ajustamento industrial e o capital tornou-se mais seletivo. Longe de ser um sinal de fragilidade, esta leitura revela maturidade. Avançar com prudência, rigor e disciplina é exatamente o que se espera de projetos industriais estruturantes num novo ciclo económico mais exigente.
O que me parece particularmente relevante neste caso é a abordagem faseada e a aposta clara em tecnologia própria. A Lifthium não está a replicar modelos existentes nem a importar soluções fechadas. Está a desenvolver uma tecnologia de refinação concebida para responder às exigências ambientais, regulatórias e industriais europeias, com foco na eficiência, na redução da pegada ambiental, na circularidade e na integração responsável na cadeia de valor das baterias. Isto coloca Portugal não apenas como país de execução, mas como país de conhecimento.
Este ponto é central. A transição energética não se faz apenas com recursos naturais. Faz-se com engenharia, investigação, talento e capacidade de execução industrial. Ao apostar numa solução tecnológica desenvolvida com equipas nacionais e internacionais, o projeto posiciona-se melhor junto de parceiros estratégicos, financeiros e industriais, num mercado onde a confiança tecnológica é determinante.
O incentivo público, neste contexto, não substitui o mercado nem garante o sucesso do projeto. Funciona como catalisador. Cria as condições para reduzir risco, atrair parceiros e permitir que uma decisão de investimento futura seja tomada com bases sólidas. É exatamente esse o próximo passo anunciado pela Lifthium: encontrar um parceiro estratégico que traga escala, mercado e robustez financeira a um projeto de longo prazo.
Há também aqui uma leitura mais ampla que importa fazer. A Europa procura reduzir dependências externas em matérias críticas, reforçar a sua autonomia industrial e garantir cadeias de abastecimento mais resilientes. Projetos como este alinham-se diretamente com essa ambição. E Portugal, ao posicionar-se na refinação e não apenas na extração, coloca-se num patamar diferente dentro dessa estratégia europeia.
Este não é um caminho rápido nem isento de riscos. Mas é um caminho certo. Se queremos uma economia mais sofisticada, mais produtiva e mais integrada nos grandes fluxos industriais do futuro, é exatamente este tipo de aposta que precisamos de saber fazer. Com ambição, sim, mas também com realismo. Com visão estratégica, mas sem atalhos.
O lítio pode ser apenas um elemento químico. Mas a forma como escolhemos integrá-lo na nossa economia diz muito sobre o país que queremos ser.








