Num mundo marcado por incerteza geopolítica, fragmentação comercial e relações históricas a serem postas à prova, esta parceria abre uma porta estratégica que Portugal conhece bem e, mais do que isso, sabe atravessar.
A Índia não é um mercado qualquer. É uma potência demográfica, económica e tecnológica em plena afirmação, com uma classe média em crescimento acelerado e uma ambição clara de se posicionar como alternativa industrial e geopolítica num mundo multipolar. Para a União Europeia, este acordo representa uma diversificação necessária face a parceiros cada vez mais imprevisíveis. Para Portugal, representa algo ainda mais profundo: uma oportunidade de reencontro estratégico com uma geografia com a qual partilha história, presença e conhecimento.
Portugal foi, durante séculos, uma das portas da Europa para a Índia. Goa não é apenas um capítulo distante dos livros de História. É uma memória viva de contacto cultural, comercial e humano, que ainda hoje se reflete em afinidades, redes e perceções positivas. Num tempo em que a diplomacia económica volta a valorizar relações de longo prazo, esta herança não é um detalhe. É um ativo.
Os números avançados pelos estudos europeus são claros. As exportações da União Europeia para a Índia podem crescer cerca de 65% nos próximos anos, com destaque para setores como produtos químicos, maquinaria e equipamentos elétricos. Curiosamente, ou talvez não, são precisamente estes três setores que já hoje estão no centro das exportações portuguesas para o mercado indiano. Isto significa que Portugal não parte do zero. Parte de uma base existente, testada e com potencial de escalar rapidamente.
Mas, ao meu ver, a relevância deste acordo vai muito além da projeção de crescimento das exportações. Ele insere-se numa estratégia mais ampla de reposicionamento europeu e português no comércio internacional. Depois do acordo com o Canadá, que consolidou uma relação transatlântica moderna e equilibrada, e do histórico acordo entre a União Europeia e o Mercosul, que abre um dos maiores mercados de livre comércio do mundo, a Índia surge como mais um pilar desta nova arquitetura comercial.
Para Portugal, isto cria uma triangulação extremamente interessante. Europa, América do Sul e agora Sul da Ásia. Três espaços económicos distintos, complementares e com enorme potencial de crescimento. Num momento em que outros parceiros históricos se tornam mais voláteis ou menos previsíveis, esta diversificação não é apenas desejável. É estratégica.
Há também um ponto muitas vezes ignorado. A Índia não procura apenas importar produtos. Procura tecnologia, know how, parceiros industriais, soluções sustentáveis e capacidade de execução. Portugal, com a sua dimensão média, flexibilidade empresarial e crescente reputação em áreas como engenharia, energia, indústria e inovação, pode posicionar-se como parceiro ágil e confiável. Não como concorrente de escala, mas como integrador de valor.
Este acordo é, portanto, uma oportunidade dupla. Para crescer exportações, sim. Mas também para aprofundar relações, criar parcerias industriais, atrair investimento e reforçar o papel de Portugal como plataforma europeia para mercados globais emergentes.
Num mundo em transformação, quem tem portas abertas tem vantagem. E Portugal, entre o Atlântico, a Europa e agora com novas ligações reforçadas à Índia, começa a desenhar um mapa de oportunidades que merece atenção. Cabe às empresas, às instituições e ao país saberem ler este momento e agir. Porque as portas estão abertas. Falta atravessá-las com ambição e visão de longo prazo.








