São investimentos fundamentais para reduzir a dependência energética, diversificar as fontes de abastecimento e responder aos desafios da transição climática. Contudo, esta transformação levanta uma questão que considero cada vez mais importante para o futuro económico do país: quanto do valor criado por estes investimentos permanece efetivamente nos territórios onde são realizados?
Muitas regiões do interior português apresentam condições particularmente favoráveis à produção de energia renovável. A disponibilidade de terrenos, a exposição solar e os recursos naturais tornam estes territórios atrativos para investidores nacionais e internacionais. No entanto, a existência de recursos naturais não garante, por si só, desenvolvimento económico. Um grande projeto energético pode representar um investimento de dezenas ou centenas de milhões de euros, mas uma parte significativa desse valor corresponde à aquisição de equipamentos, tecnologia e serviços provenientes de outras regiões ou do estrangeiro. Durante a fase de construção existe procura de trabalhadores e fornecedores locais, mas, depois de concluída a instalação, a operação exige frequentemente equipas permanentes relativamente reduzidas.
Isto não significa que estes investimentos não tragam benefícios. Podem gerar receitas fiscais, rendimentos para proprietários, oportunidades para empresas locais e melhorias em determinadas infraestruturas. A questão está em perceber se esses benefícios são suficientes para transformar estruturalmente as economias regionais. Durante décadas, muitos territórios do interior assistiram à saída de população, à redução de atividades produtivas e à concentração do investimento nos principais centros urbanos. A transição energética poderia representar uma oportunidade para contrariar algumas destas tendências, mas isso exige uma estratégia que vá além da simples instalação de capacidade de produção.
Uma região que acolhe grandes investimentos renováveis deveria procurar criar condições para atrair também atividades industriais, serviços técnicos especializados e empresas capazes de participar na cadeia de valor energética. A engenharia, a manutenção de equipamentos, a monitorização tecnológica e determinados serviços industriais podem representar oportunidades adicionais de criação de emprego qualificado. Contudo, estas atividades não surgem automaticamente. Exigem formação profissional, infraestruturas adequadas, capacidade empresarial e uma articulação efetiva entre investidores, municípios e instituições de ensino.
Também as autarquias têm aqui uma responsabilidade importante. Em vez de avaliarem os projetos exclusivamente pelo montante de investimento anunciado, deveriam procurar compreender os benefícios económicos duradouros, as necessidades de infraestrutura e as possibilidades de integração com o tecido empresarial existente. Ao mesmo tempo, é essencial garantir que a produção energética respeita a agricultura, a paisagem e os interesses das comunidades locais. Existe ainda um aspeto frequentemente esquecido: produzir eletricidade renovável numa determinada região não significa que as empresas aí instaladas tenham automaticamente acesso a energia mais barata, uma vez que essa vantagem depende do funcionamento do mercado elétrico, das redes e das condições de contratação.
Portugal tem uma oportunidade para transformar a transição energética num verdadeiro instrumento de desenvolvimento territorial. Mas o sucesso dessa estratégia não deveria ser medido apenas pelos megawatts instalados ou pelo volume de investimento anunciado. Deveria também ser avaliado pelas empresas que surgem, pelos empregos qualificados que permanecem e pela capacidade de criar novas oportunidades económicas nas regiões produtoras. O interior português não deve limitar-se a disponibilizar terrenos e recursos naturais para alimentar a economia nacional. Deve ter condições para participar na riqueza que ajuda a criar.








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