Cinquenta e dois anos depois da manhã de abril que transformou o destino de Portugal, Viseu demonstrou que a liberdade não é estática ou um mero reflexo do passado, mas uma força viva que pulsa no granito do Centro Histórico e nas vozes daqueles que insistem em ser lembrados.

As comemorações do aniversário na "Cidade de Viriato" honraram a ocupação do espaço público, transformando a emblemática Rua Direita na "Avenida da Liberdade por um dia". Durante quarenta e oito horas, a memória institucional e a irreverência artística convergiram, unindo gerações em celebração à volta do cravo.

A Véspera: Luz e Som Contra a Sombra do Silêncio

As festividades começaram na noite de 24 de abril com um gesto simbólico: a ativação da nova iluminação cénica da Rua Direita. Às 21h30, o encontro nos "4 Cantos" iluminou a rua e recuperou a centralidade histórica de Viseu. Sob esta luz renovada, a música ganhou protagonismo com o programa "Sounds Unleashed". Artistas como O Marta, Brio e Outlaw Alliance dinamizaram a rua, mostrando que a arte é um catalisador vital para reavivar o coração de uma cidade.

A vigília continuou no Carmo 81, onde se realizou o 30º Festival Termómetro. Apresentado por Fernando Alvim, Viseu juntou-se à digressão nacional desta mostra de talentos, que contou com Ya Voltagem, Ikki Galaxy e Vencidos da Vida. O evento reafirmou de forma contundente que a liberdade conquistada em 1974 é hoje um espaço de promoção de espaços independentes e de projectos emergentes que desafiam o convencional.

Dia da Liberdade: Entre o reconhecimento e a poesia

Na manhã do dia 25 de abril, as comemorações iniciaram-se com solenidade, sublinhando o papel fundamental do Regimento de Infantaria 14. No Quartel dos Viriatos, os responsáveis municipais homenagearam publicamente esta unidade militar, sublinhando a bravura das Forças Armadas no derrube do regime.

A homenagem prosseguiu na Avenida dos Capitães de abril, onde uma deposição de coroas de flores homenageou, de forma silenciosa mas firme, aqueles que conduziram os tanques rumo à democracia.

Os momentos de reflexão foram no Teatro Municipal de Viriato, durante a Sessão Comemorativa Extraordinária da Assembleia Municipal. A historiadora e ex-Ministra da Cultura Dalila Rodrigues proferiu a conferência "A Cultura em 50 Anos de Poder Local - uma síntese crítica", analisando a forma como a descentralização cultural e a autonomia local moldaram a democracia portuguesa.

Nas ruas, o Grupo OFF deu corpo à resistência através do espetáculo "Vim de Longe". Fundindo poesia e música, o grupo captou o peso da censura e o medo generalizado antes da revolução. Com palavras de José Mário Branco e Ary dos Santos, as suas cenas transformaram a Rua Direita num palco de luta contra o silêncio, culminando numa celebração da esperança trazida pelo 25 de abril.

O programa previa um final de boca na Fonte das Três Bicas com o projeto LUTA LIVRE de Luís Varatojo. O concerto, anunciado como uma "sessão de esclarecimento musical" com o Coro Vox Visio e a Banda Filarmónica de Ribafeita, foi cancelado devido ao mau tempo. No entanto, nem a chuva nem o vento diminuíram o significado das comemorações anteriores.

O Presidente da Câmara Municipal, João Azevedo, afirmou que as comemorações de abril em Viseu são "uma homenagem ao passado e um reforço do compromisso coletivo com a liberdade".

A escolha do Centro Histórico como palco revitalizou a identidade da cidade, lembrando que a democracia, tal como a Rua Direita, precisa de ser cultivada. Embora o palco final estivesse vazio, as vozes durante as celebrações provaram que a liberdade é uma conquista diária em Viseu.