Num balanço preliminar da feira internacional de arte contemporânea de Lisboa, Frederick Lehmann, o novo presidente da Exhibitio, afirmou em entrevista à agência Lusa que a principal preocupação manifestada pelos membros não está relacionada com a relevância amplamente reconhecida da feira, mas com a necessidade de "encontrar soluções estruturais que garantam a sua viabilidade a longo prazo".

A ARCOlisboa concluiu a sua 9ª edição no domingo com 15 mil visitantes na Cordoaria Nacional. Ao longo de quatro dias, reuniram-se 83 galerias de 17 países. Entre elas, 30 galerias portuguesas e 53 estrangeiras. O evento celebrou uma década, tendo feito apenas uma pausa durante a pandemia da COVID-19.

Lehmann referiu que a maioria dos membros considera que os custos de participação são insustentavelmente elevados e sublinhou que a ARCOlisboa e todas as feiras de arte internacionais necessitam de um modelo inovador e repensado para garantir o seu futuro, que deve incluir novas formas de apoio.

Sobre o balanço da edição deste ano e das anteriores, o presidente da Exhibitio considerou que a ARCOlisboa se consolidou na última década como um evento fundamental para o mercado da arte contemporânea em Portugal e para a projeção internacional da cidade.

Frederick Lehmann referiu que, em maio, a associação realizou um inquérito aos seus 30 membros, por ocasião do décimo aniversário da feira em Lisboa, para avaliar o impacto financeiro, reputacional e institucional da participação na ARCOlisboa. Os resultados foram unânimes quanto à importância do evento, organizado pela IFEMA e pela Câmara Municipal de Lisboa.

"Os resultados são bastante consensuais. As galerias consideram a feira muito importante e cerca de 35% dizem que é crucial para a sustentabilidade a longo prazo da sua atividade", indicou, acrescentando que 85% dos membros do Exhibitio estiveram presentes na edição deste ano.

De acordo com o inquérito, a maioria dos associados refere que cerca de 20% da sua faturação anual é atribuível à participação na feira, que tem como modelo a ARCOmadrid, mas com um modelo e conceito de funcionamento adaptado à escala portuguesa.

No entanto, a avaliação dos associados conclui, por outro lado, que o aumento generalizado dos custos das galerias nas feiras internacionais, após a pandemia, "alterou profundamente o equilíbrio económico da participação".

"Os principais custos são o elevado preço por metro quadrado para os expositores, a produção das obras e o transporte. Os custos aumentaram muito significativamente depois da COVID, e é o que acontece na maioria das feiras", observou.

O dirigente associativo reconhece que a edição deste ano representou uma melhoria para muitas galerias, mas atribui este resultado sobretudo à redução do IVA sobre as transacções de arte de 23% para 6%, que entrou em vigor em janeiro deste ano.

"O que a maioria dos associados nos transmitiu foi que este ano conseguiram finalmente atingir um equilíbrio entre custos e vendas", afirmou, sublinhando a importância daquela alteração fiscal para "corrigir uma situação que colocava Portugal em desvantagem face a outros mercados europeus", como França e Alemanha.

Lehmann recordou que a alteração do regime fiscal que ocorreu em 2024 teve um forte impacto negativo no sector: "A passagem de 11,5% para 23% foi um grande golpe", disse à Lusa, defendendo que a manutenção da atual taxa reduzida é essencial para a estabilidade do mercado.

"Qualquer alteração ao IVA enfraquece muito as galerias e também os artistas, cuja subsistência depende da venda das suas obras. Trabalhamos em conjunto e as galerias investem durante anos na produção, divulgação e internacionalização dos artistas com quem colaboram", sublinhou o responsável da associação que promoveu um protesto público de galeristas na edição 2025 da ARCOlisboa.

Embora acredite que a redução de impostos tenha aliviado a pressão financeira imediata, Frederick Lehmann entende que a discussão sobre a sustentabilidade da participação das galerias nas feiras internacionais de arte está longe de estar resolvida.

"O modelo atual não é sustentável. Isso é um facto. Agora é preciso iniciar um diálogo com a organização, entidades públicas e parceiros para entender o que pode ser feito para manter esse ecossistema vivo e dinâmico", afirmou.

Entre as propostas que a associação pretende discutir com entidades públicas e organizadores estão mecanismos de apoio direto à internacionalização, à semelhança do que acontece noutros sectores económicos, como o têxtil, o vinho ou o calçado.

Defende também uma maior participação das entidades públicas e privadas na criação de instrumentos de apoio permanente: "Poderia haver um fundo de aquisições para a feira ou um modelo de apoio às galerias através da associação. Há várias soluções possíveis que merecem ser estudadas", sugeriu.

Outra reivindicação dos galeristas prende-se com o reforço da dimensão internacional da ARCOlisboa, nomeadamente através da presença de mais coleccionadores e representantes institucionais estrangeiros: "Precisamos de uma maior exposição internacional, mais ligações com museus e mais interlocutores institucionais que se desloquem fisicamente a Lisboa para ver o trabalho dos artistas", defendeu.

O presidente da Exhibitio acrescentou que a associação vai agora sistematizar as opiniões recolhidas junto dos seus associados e apresentá-las formalmente à organização da feira.