Mas a inteligência artificial e a nova infraestrutura digital podem estar a alterar esta lógica. A próxima grande capital digital pode não ser uma cidade. Pode ser uma rede de cidades, energia, centros de dados e conectividade distribuída por um território muito mais vasto.

Esta foi outra das ideias que me chamou particularmente a atenção nas discussões do Atlantic Convergence 2026. Lisboa, Madrid e Barcelona podem ser vistas não apenas como três mercados separados, mas como partes de um potencial ecossistema digital ibérico. A ideia merece reflexão porque a economia da inteligência artificial está a mudar alguns dos critérios tradicionais de localização da infraestrutura tecnológica.

Nem toda a computação precisa de estar no mesmo lugar. Determinadas operações necessitam de grande proximidade aos utilizadores e tempos de resposta extremamente baixos. Outras, particularmente as que exigem enormes volumes de processamento, podem localizar-se onde existam melhores condições de energia, território e infraestrutura. O resultado poderá ser uma arquitetura muito mais distribuída do que aquela a que estamos habituados.

Isto cria uma oportunidade interessante para a Península Ibérica. Lisboa possui uma posição atlântica privilegiada e crescente conectividade internacional. Madrid beneficia da sua dimensão económica, localização central e capacidade de concentração empresarial. Barcelona acrescenta um importante ecossistema tecnológico, industrial e mediterrânico. Entre estas cidades existe ainda um território com recursos renováveis, capacidade industrial e potencial para receber novas infraestruturas.

Talvez a pergunta errada seja, por isso, qual destas cidades poderá tornar-se o próximo grande hub digital europeu. A pergunta mais interessante é perceber se podem funcionar em conjunto.

Para Portugal, isto exige também uma mudança de perspetiva. Cooperar numa plataforma ibérica não significa diminuir a importância de Lisboa. Pode significar exatamente o contrário. Quanto maior for o ecossistema ao qual estamos ligados, maior poderá ser a nossa capacidade para captar investimento especializado aproveitando aquilo em que somos particularmente competitivos.

Mas uma capital digital distribuída não nasce apenas de proximidade geográfica. Precisa de fibra de elevada capacidade, interligações energéticas, centros de dados, redes elétricas robustas, rapidez de licenciamento e capacidade de movimentar dados e energia entre diferentes pontos.

Precisamos também de evitar outro erro: confundir a economia digital portuguesa com Lisboa. Se a infraestrutura operadora de dados pode tornar-se mais distribuída, outras regiões portuguesas poderão encontrar oportunidades precisamente através da disponibilidade de energia, território e conectividade.

Talvez a inteligência artificial esteja a fazer algo inesperado. Depois de décadas em que a economia do conhecimento favoreceu uma enorme concentração nas grandes cidades, parte da infraestrutura necessária para a próxima revolução tecnológica pode começar a distribuir-se pelo território.

A próxima capital digital europeia pode, por isso, não ter uma única morada. Pode ser uma rede. E Portugal tem todas as razões para querer fazer parte dela.

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