Depois das discussões que tive oportunidade de acompanhar a moderar este ano no Atlantic Convergence, fiquei ainda mais convencido de uma ideia que considero essencial: não devemos medir o sucesso de Portugal apenas pelo número de cabos que chegam à nossa costa. O verdadeiro valor económico começa depois de chegarem a terra.
Um cabo submarino é uma infraestrutura extraordinariamente importante. Liga continentes, transporta enormes volumes de dados e pode colocar Portugal numa posição privilegiada entre a Europa, as Américas e África. Mas um cabo que chega ao nosso território e simplesmente encaminha os dados para outro país deixa em Portugal apenas uma parte limitada do valor que poderia gerar.
A oportunidade começa quando conseguimos construir à volta dessa conectividade. Fibra terrestre, pontos de interligação, centros de dados, cloud, capacidade computacional, inteligência artificial, cibersegurança e empresas tecnológicas transformam uma infraestrutura de passagem num verdadeiro ecossistema económico.
É uma lógica semelhante à que conhecemos de outras cadeias de valor. Ter um porto por onde passam mercadorias é importante. Conseguir acrescentar logística, transformação, indústria, serviços e distribuição à volta desse porto multiplica o seu impacto económico. Com os dados acontece algo semelhante.
É precisamente por isso que cabos submarinos, energia e centros de dados não podem continuar a ser discutidos separadamente. Os dados precisam de ser transportados, mas para serem processados precisam também de capacidade computacional. Essa capacidade precisa de edifícios, terrenos, fibra e, cada vez mais, enormes quantidades de energia. Cada uma destas peças aumenta o valor das restantes.
Portugal reúne várias condições interessantes. Temos a geografia, crescente conectividade atlântica, capacidade renovável, talento e proximidade ao mercado europeu. Mas ter os ingredientes não significa automaticamente criar a receita. Precisamos de redes, capacidade elétrica, território preparado, rapidez de licenciamento e uma estratégia capaz de transformar conectividade em investimento.
Há também uma dimensão local que não podemos ignorar. A chegada de um cabo pode ser uma decisão nacional ou internacional, mas muito do investimento que poderá nascer à sua volta dependerá da capacidade dos territórios para receber empresas e infraestrutura. É aí que municípios, operadores, proprietários, investidores e decisores precisam de compreender aquilo que está em jogo.
A pergunta certa, por isso, já não é apenas quantos cabos submarinos chegam a Portugal. É quantas empresas, centros de dados, serviços tecnológicos, empregos qualificados e investimento conseguimos criar a partir deles.
Durante séculos soubemos que possuir uma boa rota comercial não bastava. Era necessário construir portos, cidades, comércio e atividade económica à sua volta.
Na economia digital acontece exatamente o mesmo.
Os cabos colocam Portugal no mapa. O verdadeiro desafio é garantir que o valor não passe simplesmente por nós. Porque o cabo pode estar no fundo do Atlântico, mas o verdadeiro valor económico dos dados constrói-se em terra.







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