O facto de a indústria espacial portuguesa ter contribuído com 1,2 mil milhões de euros para o PIB entre 2019 e 2024 e gerado 2,4 mil milhões de euros para a economia no seu conjunto pertence claramente à segunda categoria. Durante demasiado tempo, falar do espaço em Portugal parecia uma conversa distante, quase exclusivamente científica ou institucional. Hoje já não é assim.

Tenho vindo a escrever sobre este setor e sobre vários dos investimentos que começam a chegar ao país porque acredito que estamos perante uma indústria que terá um peso cada vez maior na nossa economia. Os números agora apresentados ajudam a demonstrá-lo. Entre 2019 e 2024, o setor apoiou, em média, cerca de 4.500 empregos por ano e gerou receitas fiscais anuais médias de 290 milhões de euros. Mais de 150 entidades já fazem parte deste ecossistema, incluindo mais de 80 empresas ativas, com uma presença particularmente relevante em Lisboa, Coimbra e Porto.

Mas aquilo que mais me interessa nestes números é o efeito multiplicador. Por cada euro diretamente acrescentado ao PIB pelas atividades espaciais, outros 1,17 euros foram gerados através das cadeias de fornecedores e do consumo das famílias ligadas a esta indústria. É precisamente assim que se constrói uma nova economia. Não através de uma única empresa ou de um único grande investimento, mas através da criação gradual de um ecossistema onde tecnologia, universidades, investigação, fornecedores, talento e capital começam a trabalhar em conjunto.

Recentemente escrevi sobre a criação da ICEYE Portugal e sobre o novo centro de excelência em Lisboa dedicado ao desenvolvimento de software, integração de sistemas e inteligência artificial. Mas este é apenas um dos sinais. Empresas nacionais e internacionais começam a olhar para Portugal pela nossa localização atlântica, pelos Açores, pelo talento na engenharia aeroespacial, pelo enquadramento legal e pela crescente capacidade tecnológica. O investimento público no setor passou de 55 milhões de euros em 2018 para 135 milhões em 2024, enquanto empresas portuguesas conquistaram mais de 110 milhões de euros em contratos industriais da Agência Espacial Europeia entre 2019 e 2025.

Naturalmente, continuam a existir fragilidades. Portugal precisa de reter melhor o seu talento, atrair operadores industriais de maior dimensão, facilitar o acesso a capital privado e garantir continuidade nas políticas públicas. O espaço é uma indústria que exige visão de longo prazo e dificilmente crescerá ao ritmo necessário se depender apenas de ciclos políticos ou de financiamento público.

Ainda assim, os sinais são claros. Portugal já não está apenas a falar sobre a economia do espaço. Está a começar a construí-la.

E talvez esta seja a parte mais importante destes números. Num país onde tantas vezes discutimos aquilo que nos falta, há uma nova indústria a crescer diante dos nossos olhos, criando emprego qualificado, tecnologia, exportações e conhecimento.

O espaço pode parecer infinito. Mas a oportunidade económica para Portugal é muito concreta.