Governos, autarquias, associações empresariais e agências públicas procuravam convencer empresas internacionais de que Portugal era um destino competitivo para instalar fábricas, centros de serviços, operações tecnológicas ou projetos industriais. Hoje, pela primeira vez em muito tempo, começamos a assistir a uma mudança interessante nessa narrativa.

Ao ler as recentes declarações do Ministro da Coesão Territorial sobre a criação de novas áreas empresariais inspiradas no modelo de Sines, fiquei com a sensação de que entrámos numa nova fase. O problema já não parece ser a falta de interesse dos investidores. O desafio passa a ser garantir que o país está preparado para receber os investimentos que estão a chegar.

O caso de Sines é provavelmente o melhor exemplo desta transformação. Aquilo que durante muitos anos foi visto por alguns como um projeto demasiado ambicioso tornou-se num dos principais polos de atração de investimento em Portugal. Entre projetos industriais, energéticos, tecnológicos e ligados à economia dos dados, o volume de investimento anunciado ultrapassa já os 25 mil milhões de euros. Um valor impressionante para a dimensão da economia portuguesa.

Mas existe um detalhe que merece atenção. Um grande investimento não traz apenas fábricas, centros de dados ou infraestruturas tecnológicas. Traz pessoas. Traz trabalhadores especializados. Traz famílias. Traz procura por habitação, escolas, cuidados de saúde, comércio, serviços e mobilidade. E é precisamente aqui que o debate se torna mais interessante.

Pela primeira vez ouvimos responsáveis públicos falar não apenas da necessidade de captar empresas, mas da necessidade de planear comunidades capazes de suportar esse crescimento. E essa é uma conversa que Portugal precisa de ter.

Ao longo dos últimos anos tenho acompanhado de perto projetos ligados à energia, centros de dados, inovação tecnológica e investimento internacional. Uma conclusão parece cada vez mais evidente: os países que vão beneficiar da nova economia não serão apenas aqueles que conseguem atrair investimento. Serão aqueles que conseguem criar ecossistemas completos onde empresas e pessoas queiram permanecer.

A decisão de replicar o modelo de Sines noutras regiões do país pode representar uma oportunidade histórica. Não apenas para captar mais investimento, mas para criar novos polos económicos fora dos centros urbanos tradicionais. O interior, o Centro e várias regiões do Norte podem beneficiar de uma dinâmica que durante décadas esteve excessivamente concentrada em poucas áreas do território.

Naturalmente, o sucesso dependerá da capacidade de execução. Infraestruturas, habitação, energia, formação e planeamento terão de avançar ao mesmo ritmo dos investimentos.

Mas a mensagem principal é positiva. Durante décadas perguntámos como poderíamos convencer o mundo a investir em Portugal.

Hoje começamos a discutir algo muito mais interessante. Como preparar Portugal para o investimento que o mundo já decidiu trazer.