Bruno Gomes dirige a Eco Construções Portugal a partir de Fafe, no distrito de Braga. Aprendeu construção ecológica na Holanda, no Japão, na Turquia, em Abu Dhabi e no México, antes de trazer esse trabalho para o seu país.
Criado num bairro pobre e violento de Lisboa, perdeu ambos os pais devido ao cancro quando tinha 11 anos: o pai em abril e a mãe em outubro do mesmo ano. Viveu com uma família de acolhimento e frequentou a Casa Pia, onde aprendeu marcenaria. Bruno afirma: «Tinha nove escolas e foi criada para dar aos órfãos e às crianças de rua um futuro, um futuro melhor. As grandes mentes da época, os professores, iam todos para lá ensinar as crianças, pelo que se tornou uma escola de elevada qualidade.»
Aos 14 anos, começou a trabalhar em estaleiros de construção, a carregar baldes de cimento até ao sétimo andar. Ainda carregava os traumas do seu passado. Depois de uma situação que pôs a sua vida em risco, percebeu que tinha de fazer uma grande mudança. Bruno recorda: «Olhei para mim mesmo, bem no fundo de mim, e só vi escuridão. E vi apenas uma luz muito pequena, que associei à minha mãe, como se fosse a luz da minha mãe. Mas era tão pequena.»
Aos 18 anos, partiu de Portugal para trabalhar na construção civil na Holanda como carpinteiro de cofragem. Foi lá que teve o seu primeiro contacto com a construção em barro e descobriu a sua paixão por este material que viria a moldar a sua vida.
O Bruno queria aprender com os construtores tradicionais, por isso passou vários anos a viajar e a trabalhar. Ganhou o seu dinheiro na Áustria, a trabalhar num hotel, e, passados alguns anos, passou metade de cada ano a estudar construção natural noutros locais do mundo. O primeiro desses anos levou-o ao Japão, onde aprendeu a construção tradicional em madeira e a construir telhados resistentes a sismos. Também estudou Feng Shui lá e aprendeu mais com os chineses que conheceu na Áustria.
As suas viagens levaram-no depois à Turquia, onde conheceu Yusuf, um sufi e pastor de cabras. Yusuf deixou-o dormir na sua casa, a que chamava o seu templo, e dava-lhe uma refeição por dia. Em troca, Bruno ajudava a cuidar do rebanho e, mais tarde, na restauração das casas de adobe da aldeia. Quando Bruno se tornava arrogante, Yusuf mandava-o dormir lá fora até que se acalmasse novamente. Bruno diz: «Ele era rigoroso, mas também me deu muito do que eu precisava.»
Um dos ensinamentos de Yusuf era andar com o coração, falar com o coração e pensar com o coração. Bruno recorda: «E como eu era inexperiente, dizia: “Ah, sim, desculpa. Mas eu ando com os pés. Penso com a cabeça. Não consigo pensar com o coração. Penso com o cérebro.”» Só mais tarde é que começou a compreender o que Yusuf queria dizer. Bruno diz: «Há tanta coisa que aplico hoje em dia que me foi ensinada por ele.»
A mistura esquecida que tornou o seu adobe mais resistente
Em Oaxaca, no México, Bruno juntou-se a um grupo de construtores naturais provenientes de vários países, trocando técnicas de adobe, terra compactada e reboco de cal, e aprendendo uns com os outros novos métodos de construção com terra.
Lá, ele e o seu grupo estavam a terminar um albergue para um cliente. Um dia, deixaram para trás um lote de mistura de adobe, coberto com plástico, e voltaram quatro ou cinco dias depois.
«Quando voltámos, abri o plástico e cheirava muito mal», conta Bruno. «A mistura não era composta por materiais diferentes misturados, mas sim por um único material. Foi então que percebi: bem, algo de muito bonito tinha acontecido aqui.» Ele cortou-a. Descreve o que encontrou numa única palavra: manteiga.
Decidiu fazer adobes com ela. Existe um teste padrão no local para verificar se um adobe está bem feito. Colocam-se dois no chão com um espaço entre eles, coloca-se um terceiro por cima e alguém com cerca de 80 quilos pisa no meio. Se aguentar, o adobe está bom. «Mas com estes adobes, éramos dois em cima e estávamos a pressionar, e o adobe não se partiu», diz Bruno. Tem trabalhado assim desde então: misturar, cobrir, deixar repousar e, depois, construir.
Depois do México, Bruno sentiu o chamamento para regressar a Portugal e levar o que tinha aprendido para o seu próprio país, onde criou a sua empresa como construtor ecológico. Os seus materiais são argila, cal, pedra, madeira e vidro, e ele não utiliza pneus, latas nem alumínio. Aceita fundações de betão, canalização e instalação elétrica porque são necessárias para que um edifício seja aprovado. Bruno afirma: «Uma coisa que não nos deixam ultrapassar são as fundações. Mas acima disso, é o meu mundo.»
Créditos: Imagem cedida; Autor: Eco Construções Portugal;
Quando alguém lhe diz que a chuva vai levar uma parede de barro, que foi exatamente o que ele próprio pensou da primeira vez que ouviu falar disso, ele aponta para Aveiro. «Aveiro foi construída em adobe e é extremamente, extremamente húmida. Devido à ria, há muita água por todo o lado, até mesmo por baixo do solo. E é como se estivesse porta a porta com o oceano.» Os edifícios antigos continuam de pé.
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Sobre Bruno Gomes
Bruno Gomes nasceu em Lisboa em 1980 e trabalha na construção civil desde os 14 anos. Formou-se como marceneiro e saiu de Portugal aos 18 anos. Nos anos que se seguiram, dedicou-se a aprender a construir com terra, onde esta prática ainda é comum. Trabalhou com um grupo especializado em construção com argila nos Países Baixos, numa aldeia perto de Konya, na Turquia, em telhados de madeira e argila em Abu Dhabi e com um grupo internacional de construtores em Oaxaca, no México. No Japão, estudou a construção de telhados de madeira e, tanto lá como na Áustria, aprendeu Feng Shui, que oferece a par do seu trabalho de construção. Inicia a sua atividade independente em 1998 e fundou a Eco Construções Portugal após regressar a casa. Não cobra pelo ensino. «Cobro pelo meu trabalho, não por ensinar.»








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