Num parecer divulgado hoje, o grupo, que reúne todos os ex-Altos Comissários para a Imigração e outros especialistas, sugere ao Governo um “compromisso entre as diferentes perspetivas em jogo, aumentando o período de residência legal em Portugal de cinco para seis anos antes de apresentar um pedido de naturalização”.
A proposta de lei do governo, que será votada em setembro, propõe aumentar os atuais cinco anos (contados a partir da chegada, não da autorização de residência) para sete anos para cidadãos de língua portuguesa e dez anos para outros.
Para os membros do Consenso de Imigração, que está organizando um colóquio sobre o tema na Universidade de Lisboa na segunda-feira, “o acesso à nacionalidade, pelas razões certas, permite estabilidade e segurança no país de residência e contribui para o investimento na integração e inclusão de longo prazo”.
Segundo os autores do parecer, “o pedido de nacionalidade portuguesa pressupõe — e não dispensa — um respeito consciente e absoluto por parte do requerente da Constituição da República Portuguesa, bem como pelo Estado de Direito e pelas convenções e outros instrumentos jurídicos fundamentais dos quais Portugal é signatário”.
Compromisso
Reconhecendo que a sociedade portuguesa está dividida sobre a questão da imigração, o grupo visa “buscar compromissos e pontos comuns entre as diferentes posições políticas e partidárias presentes, buscando o equilíbrio, o bom senso e, claro, o respeito pelos princípios fundamentais de uma sociedade democrática, estruturada no respeito pelo Estado
de Direito”.O acesso à nacionalidade não deve ser, alertam, “visto como uma opção instrumental para outros fins, como os decorrentes da posse de um passaporte de um país Schengen”, mas sim como um “passo muito importante no processo de integração e inclusão para muitos imigrantes que efetivamente desejam se integrar à comunidade política nacional”.
Portanto, “o conhecimento suficiente da língua portuguesa e dos princípios cívicos e de coexistência decorrentes da Constituição Portuguesa devem constituir requisitos reforçados para a concessão da nacionalidade por naturalização”, argumentam os autores.
“Portugal, como comunidade de cidadãos, deve ver positivamente que alguém, cumprindo todos os requisitos legais, deseja se juntar a essa comunidade, assumindo os deveres e direitos resultantes”, argumentam os autores, admitindo que os recentes resultados eleitorais contribuíram para “a pressão por uma revisão restritiva da lei atual”, afirma o texto.
Para os autores, a separação de prazos para pessoas que falam português e não falam português, conforme estabelecido na proposta do governo, “viola os princípios de igualdade e não discriminação”.
A par da nacionalidade, os autores defendem que “sejam dadas garantias aos cidadãos imigrantes que tenham uma alternativa viável à solicitação da nacionalidade caso desejem permanecer em Portugal, nomeadamente através da renovação eficiente e adequada da sua Autorização de Residência”.
Aprendizagem de idiomas
Os signatários defendem o fortalecimento do Instituto de Registros e Notários e a “garantia do acesso ao aprendizado da língua portuguesa para todos os imigrantes não lusófonos”, “o fortalecimento da educação formal e informal e da certificação”.
Ao mesmo tempo, “um teste nacional deve ser introduzido para maiores de 18 anos para demonstrar conhecimento dos princípios cívicos e de coexistência decorrentes da Constituição da República Portuguesa”, semelhante a modelos similares que existem na Espanha e no Reino Unido (o “Teste Life in UK”).
Os autores também pedem transparência do Estado para combater a desinformação, com a publicação anual de um “relatório nacional sobre os processos de concessão e aquisição da nacionalidade portuguesa, com dados desagregados por método de acesso, perfil sociodemográfico e tempos de resposta dos serviços”.
Sobre a perda da nacionalidade de cidadãos naturalizados há menos de dez anos como uma sanção adicional após um crime, proposta pelo Governo, os autores do relatório defendem que a iniciativa deve ser supervisionada pelo Tribunal Constitucional.
O acesso à nacionalidade “é uma questão que deve merecer amplo consenso na sociedade portuguesa e não ser nem uma arma de guerra política nem um fator de exacerbação da polarização e fratura social que temos testemunhado entre nós”, concluem os autores.
Criado em meados de junho, este grupo inclui quatro ex-altos comissários, a ex-secretária de Estado Catarina Marcelino, as pesquisadoras Lucinda Fonseca e Catarina Reis Oliveira, e os líderes associativos Eugénia Quaresma, diretora da Associação Católica Portuguesa de Migrações e Paulo Mendes, presidente da Associação de Imigrantes dos Açores.