Esses fatores continuam relevantes, mas já não chegam. Hoje, para empresas de tecnologia, serviços financeiros, inteligência artificial, fintech, cibersegurança ou centros de serviços internacionais, a pergunta decisiva passou a ser outra: onde está o talento?
Esta mudança está a transformar profundamente o mercado de escritórios. O recente estudo da Colliers sobre centros globais de serviços financeiros mostra que as empresas já não escolhem cidades apenas pela tradição financeira ou pelo custo de ocupação. A disponibilidade de profissionais qualificados, a capacidade de inovação, as universidades, o ecossistema tecnológico e a qualidade de vida tornaram-se fatores determinantes.
É neste contexto que Lisboa surge pela primeira vez entre os principais centros operacionais europeus para serviços financeiros. Não porque se tenha transformado numa nova Londres, Frankfurt ou Paris, mas porque o próprio conceito de centro financeiro mudou. A banca, os seguros e os serviços financeiros são cada vez mais empresas de tecnologia, dependentes de engenheiros de software, especialistas em dados, cibersegurança e inteligência artificial.
É aqui que o imobiliário deve prestar atenção. Durante demasiado tempo, os escritórios foram analisados quase exclusivamente como ativos físicos: localização, qualidade do edifício, renda, dimensão e rentabilidade. Mas o valor de um escritório depende cada vez mais do que existe fora das suas paredes: habitação, transportes públicos, universidades, conectividade digital, energia, serviços, cultura e, sobretudo, da possibilidade de um profissional imaginar uma vida nessa cidade.
O escritório deixou, por isso, de ser o ponto de partida da decisão. Passou a ser a consequência de um ecossistema capaz de atrair pessoas. Esta transformação cria uma grande oportunidade para Portugal, mas também expõe fragilidades: teremos habitação suficiente para os profissionais que queremos atrair? Mobilidade eficiente? Energia e infraestruturas digitais à altura? Conseguiremos reter os jovens que formamos?
Estas também são perguntas imobiliárias. Um edifício pode ter a melhor certificação ambiental, a arquitetura mais sofisticada e a tecnologia mais avançada. Mas se estiver numa cidade onde as pessoas não conseguem encontrar casa, perdem horas no trânsito ou veem o talento desaparecer, o seu valor será inevitavelmente afetado. O contrário também é verdadeiro: cidades com bons ecossistemas de talento, conhecimento, mobilidade e qualidade de vida tornam-se mais atrativas para empresas e investidores.
Talvez seja, por isso, altura de deixarmos de discutir o mercado de escritórios apenas em metros quadrados disponíveis, rendas prime ou taxas de ocupação. Esses indicadores continuam importantes, mas contam só uma parte da história. A verdadeira competição entre cidades será cada vez mais pela capacidade de atrair e reter pessoas qualificadas. As empresas seguirão essas pessoas. Depois virão os escritórios.
O futuro dos escritórios já não se decide nos escritórios. Decide-se nas universidades onde formamos talento, nas casas onde esse talento consegue viver, nos transportes que utiliza, na qualidade das cidades e na capacidade de construir ambientes onde empresas e pessoas queiram permanecer. Antes de construir edifícios para empresas, teremos de construir cidades onde as pessoas que essas empresas procuram queiram realmente viver.









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