Um estudo recente da Porto Business School conclui que Portugal poderá criar dois ou três campeões globais de deep tech até 2030. O país já dispõe de ciência, talento, empresas e infraestruturas, mas continua a enfrentar um problema conhecido: quando as empresas chegam a determinada dimensão e precisam de capital significativo para crescer, Portugal e a própria Europa têm dificuldade em acompanhá-las. Em 2025, o investimento português em deep tech rondou os 400 milhões de euros, três vezes mais do que em 2018, mas apenas cerca de 2% do total europeu.
É aqui que surge uma segunda notícia que ajuda a completar o cenário. Portugal aderiu à nova fase da European Tech Champions Initiative, promovida pelo Banco Europeu de Investimento. A ETCI 2.0 pretende captar até 15 mil milhões de euros e, através de fundos europeus, mobilizar até 80 mil milhões para mais de 1.500 empresas tecnológicas em crescimento.
As duas notícias estão diretamente relacionadas. Portugal já demonstrou que consegue criar tecnologia e empresas com ambição internacional. TEKEVER, Sword Health, Feedzai, Critical Manufacturing e Neuraspace são alguns dos exemplos destacados pela Porto Business School. O problema começa quando uma empresa precisa de dezenas ou centenas de milhões para entrar numa nova fase de crescimento. Se esse capital não existir por cá, irá naturalmente procurá-lo onde ele existe.
E com o capital podem deslocar-se também a sede, a propriedade intelectual, equipas estratégicas e centros de decisão. Podemos continuar orgulhosamente a dizer que determinada empresa nasceu em Portugal, mas uma parte importante do valor económico criado durante as décadas seguintes poderá acabar noutro país.
É por isso que o verdadeiro objetivo não deveria ser simplesmente criar mais startups ou celebrar mais unicórnios. Deve ser construir empresas globais que mantenham em Portugal conhecimento, propriedade intelectual, emprego altamente qualificado e capacidade de decisão.
Capital, contudo, não resolve tudo. O estudo identifica também dificuldades na transferência da investigação para o mercado, falta de talento especializado e reduzida utilização do Estado como primeiro cliente de novas tecnologias. Em setores como defesa, saúde ou infraestruturas, ter um primeiro grande cliente pode ser decisivo para validar uma solução antes de a levar aos mercados internacionais.
Portugal não precisa de competir em todas as tecnologias. Precisa de escolher aquelas onde já possui vantagens reais. Espaço e Atlântico, defesa, inteligência artificial, semicondutores e fotónica, saúde e biotecnologia, economia azul, energia e tecnologias verdes estão entre as áreas identificadas no estudo.
Talvez devêssemos falar mais sobre isto. Passamos muito tempo, justificadamente, a discutir os problemas da economia portuguesa. Mas também precisamos de explicar aquilo que estamos a tentar construir para os resolver.
Durante muitos anos perguntámos se Portugal conseguiria criar empresas tecnológicas capazes de competir no mundo. Hoje sabemos que consegue. A pergunta seguinte é mais exigente: conseguiremos criar condições para que cresçam no mundo mantendo uma parte relevante do seu valor em Portugal?
Criar cá é importante. Crescer globalmente é indispensável. Conseguir que continuem a investigar, investir e decidir a partir de Portugal será o verdadeiro sinal de sucesso.









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