Os números recentemente divulgados pela APREN são reveladores. Existem cerca de 60 mil milhões de euros de investimento em energias renováveis à espera de avançar, mas bloqueados por processos de licenciamento, limitações na rede elétrica e falta de decisões. Segundo o estudo, cada ano de atraso representa cerca de 1,7 mil milhões de euros de receita fiscal que o Estado deixa de arrecadar. Esta já não é uma discussão sobre energia. É uma discussão sobre competitividade.

O mais curioso é que Portugal é hoje um dos países europeus com maior incorporação de energias renováveis na produção de eletricidade. A produção renovável permite reduzir a dependência energética, baixar o custo da eletricidade para famílias e empresas e tornar o país mais atrativo para novas indústrias. No primeiro semestre deste ano, houve praticamente um mês em que a produção renovável foi suficiente para responder à totalidade do consumo nacional. Ou seja, sabemos produzir energia limpa. O que continua a faltar é a capacidade para transformar essa vantagem em crescimento económico.

Infelizmente, esta realidade não acontece apenas no setor energético. Encontramo-la na habitação, onde faltam casas porque os processos continuam lentos. Encontramo-la na indústria, onde projetos esperam anos por autorizações. Encontramo-la nos centros de dados, na logística e em muitos outros setores estratégicos. O padrão repete-se demasiadas vezes. Portugal consegue atrair investidores, mas depois demora demasiado tempo a decidir.

Naturalmente, ninguém defende menos exigência ambiental ou menos transparência. Um país moderno precisa de regras claras e de avaliação rigorosa dos projetos. Mas uma coisa é escrutinar. Outra muito diferente é transformar a decisão num processo tão longo que a oportunidade desaparece antes da licença chegar.

Vivemos numa economia global onde o capital é cada vez mais móvel. Os investidores aceitam regras. O que dificilmente aceitam é incerteza permanente. Quando um projeto demora anos entre pareceres, autorizações e diferentes entidades, o risco deixa de estar no investimento e passa para o próprio país.

Talvez tenha chegado o momento de mudarmos a forma como avaliamos a competitividade nacional. Hoje, já não basta perguntar quanto investimento conseguimos atrair. Precisamos de perguntar quanto investimento conseguimos concretizar.

Porque o verdadeiro problema de Portugal já não é a falta de oportunidades. É a velocidade com que somos capazes de as transformar em realidade.

E, num mundo onde as decisões se tomam cada vez mais depressa, talvez o maior risco para a nossa economia já não seja a falta de investimento. Seja simplesmente demorarmos demasiado tempo a dizer sim.