Numa audição conjunta na Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, o presidente da Agência para a Integração, Migração e Asilo(AIMA), Pedro Portugal Gaspar, e o presidente do Conselho Nacional de Migração e Asilo(CNMA), António Vitorino, concordaram com a necessidade de Portugal criar um regulamento para o estatuto de apátrida, que conduza à atribuição da nacionalidade, como previsto numa lei de 2023 que nunca foi implementada.
"Este sistema é suficientemente forte para combater a fraude", afirmou António Vitorino, que foi também diretor da Organização Internacional para as Migrações(OIM).
Convergência dos projectos de lei
Lembrando que muitos casos de apatridia correspondem a processos legais de revogação de cidadania (minorias étnicas, por exemplo) ou em países que "têm sistemas de registo civil vulneráveis e frágeis", António Vitorino sublinhou que em Portugal os processos dizem respeito a "situações individuais que exigem um procedimento próprio e específico".
"Há uma grande convergência destes quatro projectos de lei" que estão em discussão, apresentados pelo Livre, PSD, PS e BE, e "todos parecem extremamente adequados para proteger esta lacuna regulamentar", acrescentou.
O presidente da AIMA elogiou o "consenso parlamentar" em várias medidas dos projectos de lei, incluindo o efeito suspensivo dos recursos e o "aproveitamento de algumas figuras existentes" noutros projectos para acelerar procedimentos.
"A AIMA estará cá para desenvolver a aplicação do regime jurídico aprovado pelos deputados", disse Pedro Portugal Gaspar, sublinhando que a organização tem "reduzido as pendências" e aumentado a "regularização das grandes pendências documentais", pelo que haverá condições para aplicar o regulamento.
"Há sempre um potencial de fraude em todos os sistemas, mas em coordenação com outras entidades, com prazos que me parecem adequados e com relativa margem de decisão sobre os procedimentos, a AIMA não se vai alarmar", acrescentou.
Todos os partidos concordaram, em janeiro deste ano, em elaborar um projeto de regulamentação sobre a apatridia em Portugal, exceto o Chega, que acusou o PSD de estar do lado da esquerda.
Os projectos de lei do PSD, PS, BE e Livre prevêem uma via para a apatridia de um cidadão que não tenha nacionalidade, mediante uma avaliação da situação de cada requerente e no respeito pelos acordos internacionais.
Estatuto aprovado
O estatuto foi aprovado em 2023, mas a legislação não foi regulamentada devido à queda do governo de então, e só agora o principal partido de apoio ao governo PSD/CDS promoveu um novo debate, após a aprovação de legislação sobre nacionalidade, entrada de estrangeiros, retorno e criação da Unidade de Estrangeiros e Fronteiras.
Paulo Muacho (Livre) lembrou que "a apatridia representa a privação de um dos direitos mais básicos do ser humano", que é "o direito a uma nacionalidade", pelo que cabe ao parlamento regulamentá-lo.
António Rodrigues (PSD) disse acreditar que o parlamento vai encontrar uma solução rápida para algo que carece de regulamentação há algum tempo, e defendeu que os projectos de lei em discussão, "à exceção de um", "quase que se podiam substituir uns aos outros, quase que à exceção das vírgulas", sublinhando que os prazos previstos são "negociáveis e consensuais".
Isabel Moreira (PS) sublinhou que se trata de um "regime que ficou por implementar", rejeitou a ideia de que o projeto de lei constitui "uma porta de entrada para a migração" e agradeceu as intervenções, que "solidificaram a certeza de que é oportuno" avançar com o regulamento.
A única voz discordante veio de Chega, com Ricardo Reis a apontar o risco de fraude se o requerente apátrida se desfizer dos documentos originais e houver problemas nos registos dos países de origem.







