O primeiro painel procurava repensar o debate sobre os centros de dados e os novos modelos energéticos necessários para a era da inteligência artificial. O segundo discutia de que forma os ativos imobiliários podem contribuir para expandir e densificar a infraestrutura digital e de inteligência artificial. À primeira vista podem parecer dois assuntos diferentes. Depois de ouvir especialistas destas indústrias, torna-se evidente que estamos, na realidade, a falar da mesma transformação.

A inteligência artificial não existe apenas na cloud. Por detrás de cada aplicação, modelo ou serviço existem centros de dados, servidores, processadores, redes de fibra, cabos submarinos, terrenos, edifícios e uma enorme necessidade de energia. À medida que a procura de capacidade computacional aumenta, energia, conectividade e localização deixam de ser questões secundárias e passam a determinar onde a nova economia digital pode crescer.

Foi precisamente esta convergência que mais me marcou ao longo do evento.

Durante demasiado tempo tratámos energia, imobiliário e tecnologia como setores independentes. Os promotores imobiliários falavam de terrenos e edifícios. O setor energético discutia produção, redes e armazenamento. A indústria digital preocupava-se com conectividade, centros de dados e capacidade computacional. A inteligência artificial está a obrigar todos estes mundos a sentarem-se à mesma mesa.

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No painel sobre energia discutimos exatamente isto. O crescimento da IA está a criar uma procura sem precedentes por capacidade computacional, mas essa capacidade precisa de energia fiável, escalável e sustentável. A questão começa, por isso, a inverter-se: continuaremos a levar energia até onde queremos instalar os centros de dados ou começaremos também a levar a infraestrutura digital para onde existe energia disponível?

Esta diferença parece pequena, mas pode alterar profundamente a geografia do investimento.

Portugal tem aqui uma oportunidade que merece ser compreendida. Temos uma posição atlântica privilegiada, ligações internacionais através de cabos submarinos, capacidade crescente em energias renováveis, território, infraestruturas e proximidade aos principais mercados europeus. O próprio evento discutiu Portugal como potencial gateway digital atlântico, ligando Europa, Américas e África através de cabos, fibra terrestre e centros de dados. Markdown colado

Mas ter estas vantagens não significa automaticamente transformá-las em economia.

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Foi também por isso que quis aproximar o imobiliário desta discussão. Quando falamos de infraestrutura digital, o setor imobiliário já não pode pensar apenas em metros quadrados. Terrenos industriais, parques logísticos, edifícios e outros ativos começam a ser avaliados também pela energia disponível, conectividade, capacidade de licenciamento e possibilidade de receber infraestrutura de dados. O imóvel deixa, em determinados casos, de ser apenas o local onde a infraestrutura é instalada para passar a fazer parte da própria cadeia de valor digital.

Isto cria oportunidades completamente novas para investidores, proprietários, municípios e promotores que conseguirem perceber antecipadamente esta transformação.

Mas talvez a maior conclusão que retirei destes dois dias seja outra: a economia digital está a tornar-se uma economia física.

Falamos constantemente de inteligência artificial como software. No entanto, a próxima fase da IA dependerá tanto de GPUs e algoritmos como de eletricidade, redes, terrenos, edifícios, sistemas de refrigeração, armazenamento energético, fibra e cabos submarinos. O futuro digital precisa de uma enorme infraestrutura física para existir.

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E é precisamente aqui que Portugal pode encontrar uma oportunidade extraordinária.

Não basta, contudo, termos energia renovável, cabos submarinos ou uma boa localização geográfica. Precisamos de conseguir ligar estes ativos entre si, acelerar licenciamentos, preparar território, reforçar redes e, sobretudo, fazer com que decisores públicos e privados compreendam que estas indústrias já não podem ser planeadas separadamente.

Ao longo do Atlantic Convergence falou-se de soberania digital, energia, cibersegurança, centros de dados, conectividade, espaço, inteligência artificial e novas geografias digitais. Falou-se também da possibilidade de Lisboa, Madrid e Barcelona funcionarem progressivamente como um ecossistema digital ibérico interligado, em vez de dependerem exclusivamente do modelo tradicional de um único grande hub. Markdown colado

São discussões que podem parecer técnicas. Não são.

Estamos a falar de investimento, emprego qualificado, energia, território, produtividade, soberania e capacidade de Portugal participar numa das maiores transformações económicas das próximas décadas.

Talvez seja por isso que me continue a surpreender a pouca atenção que estes temas recebem fora dos círculos especializados. Conseguimos dedicar horas de televisão e páginas de jornais ao mesmo jogo de futebol, enquanto discussões que podem influenciar milhares de milhões de euros de investimento e a posição económica futura do país permanecem praticamente desconhecidas do grande público.

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Não se trata de deixar de falar de futebol. Trata-se de começarmos também a falar da economia que estamos a construir.

Depois de moderar estes dois painéis, fiquei ainda mais convencido de algo sobre o qual tenho vindo a escrever: Portugal tem uma oportunidade rara de colocar a sua energia, localização atlântica, conectividade e território ao serviço da nova economia digital.

A oportunidade existe. O capital internacional está à procura de onde investir. A tecnologia está a avançar. A procura por energia e infraestrutura está a crescer.

A questão agora é saber se conseguiremos juntar as peças suficientemente depressa para que uma parte relevante dessa economia seja construída aqui.

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