Mas pergunto-me: quantos de nós aproveitam esta bela estação para oferecer a si próprios algo que tão livremente damos aos outros? A dádiva de um novo começo.
Recentemente, estava a falar com uma amiga que me disse algo que me marcou muito. Ela disse: "Nunca falaria com outra pessoa da forma como falo comigo própria". E eu pensei, como isso é verdade para muitos de nós. Somos tão rápidos a confortar um amigo que está a passar por dificuldades, a dizer-lhe que os seus erros não o definem, que ele é digno de amor e felicidade. No entanto, quando se trata de nós próprios, podemos ser absolutamente impiedosos.
A bagagem que carregamos
Carregamos as nossas velhas histórias como uma bagagem pesada. "Não sou suficientemente bom", "Estou sempre a estragar tudo", "Não mereço coisas boas". Arrastamos estas narrativas connosco para onde quer que vamos, muitas vezes sem nos apercebermos do peso que estamos a carregar. E a parte mais triste é que, muitas vezes, andamos com elas há tanto tempo que já nem sequer nos questionamos se são verdadeiras. Simplesmente aceitamo-las como um facto, como se estivessem escritas em pedra, como se não pudessem ser mudadas.
Mas podem ser mudadas. É esse o objetivo.
É isto que a Páscoa nos recorda: que a ressurreição é possível. Que aquilo que parece morto e acabado pode voltar a florescer. Nunca é demasiado tarde para a renovação. A história da Páscoa não é apenas algo que aconteceu há dois mil anos. É um convite, dirigido a cada um de nós, para acreditarmos que, por mais sombrias que tenham sido as coisas, é sempre possível um novo amanhecer.
A história da Páscoa é, em última análise, uma história de amor radical e incondicional. Um amor que vê todos os nossos defeitos e falhas e diz: "Ainda és digno. Continuas a ser amado. Continuas a ser importante. E se acreditamos verdadeiramente nesse amor, então talvez esta seja a época para finalmente voltarmos esse amor para dentro de nós e oferecermos a nós próprios a mesma misericórdia que tão voluntariamente damos a todos os outros.
A auto-compaixão não é autoindulgência. Não é inventar desculpas ou deixar-se levar pela culpa. É simplesmente escolher tratarmo-nos a nós próprios com a mesma bondade que ofereceríamos a alguém de quem gostamos muito. É dizer: "Sou humano, tive dificuldades, cometi erros e continuo a merecer a graça". A autora Kristin Neff, que passou grande parte da sua carreira a estudar a auto-compaixão, descreve-a como três coisas simples. Ser gentil consigo próprio em vez de o julgar severamente. Reconhecer que o sofrimento e a luta fazem parte da experiência humana partilhada. Permitir-se viver com sentimentos dolorosos em vez de os afastar. Parece tão simples e, no entanto, para muitos de nós, é a coisa mais difícil do mundo.
Confiar no processo
Penso na forma como a natureza se comporta na altura da Páscoa. As árvores não passam o inverno a criticar-se por terem perdido as folhas. Os narcisos não pedem desculpa por demorarem tanto tempo a aparecer. Simplesmente confiam no processo e, quando chega a altura certa, florescem. Há nisso uma lição silenciosa mas poderosa para todos nós.
Por vezes, precisamos de nos dar permissão para estar no inverno das nossas vidas durante algum tempo, sabendo que a primavera voltará. A cura raramente é linear. O crescimento raramente é ordenado.
Por isso, nesta Páscoa, para além dos ovos de chocolate e das reuniões familiares, quero convidá-lo a dar a si próprio o presente mais significativo de todos. Permissão para abandonar a velha história, para começar de novo e para se erguer.
Pense na narrativa que tem vindo a carregar sobre si próprio. É de facto verdadeira? Serve-o? Ou é simplesmente um guião velho e gasto que já ultrapassou? Porque aqui está a verdade. Tu não és o teu pior momento. Não és o teu maior fracasso. Não és as coisas desagradáveis que te disseram, ou as vezes em que não conseguiste ser quem querias.
Tu és alguém que sobreviveu a cada um dos capítulos difíceis da tua vida até agora. Cada um deles. E aqui está, ainda de pé, ainda a tentar, ainda a aparecer. Isso não merece críticas. Isso merece ser celebrado.
Nesta Páscoa, que possas falar contigo com a mesma ternura que oferecerias a um amigo querido. E que se lembre de que o mesmo amor que está no centro desta época, sem limites, incondicional e infinitamente renovador, também se destina a si.
Desejo-lhe uma Páscoa cheia de amor, renovação e mais gentileza para consigo mesmo.
Com amor, Sally Heart








