Ela não esperava se apaixonar tão profundamente pelo país ou descobrir um desafio sistêmico que inspiraria seu próximo grande capítulo filantrópico. Hoje, como fundadora e presidente da recém-criada Fundação Futura, Shaber está empregando seus recursos financeiros e estratégicos para combater a fuga de cérebros dos jovens de Portugal, equipando mulheres em início de carreira com as ferramentas de previsão estratégica, imaginação e solução cívica de

problemas.

A iniciativa se baseia em uma carreira notável passada na interseção entre medicina, gestão e finanças inteligentes de gênero. Obstetra-ginecologista por formação, Shaber passou décadas como executiva sênior na Kaiser Permanente, uma das maiores prestadoras de serviços de saúde sem fins lucrativos dos Estados Unidos, onde gerenciou a prestação de cuidados a milhões de

pacientes.

“Nesse trabalho, aprendi sobre prestação de cuidados de saúde e como cuidar de um grande grupo de pessoas”, explica Shaber. “Mas também aprendi o quanto as mulheres são importantes, não apenas para sua própria saúde, mas obviamente para a saúde de suas famílias e comunidades.”

Essa constatação a levou a deixar seu cargo executivo na Kaiser Permanente em 2012. Dois anos depois, em 2014, ela fundou a Tara Health Foundation, com sede nos EUA, pioneira em investimentos de impacto inteligentes de gênero. Por meio de investimentos em capital próprio em startups de saúde reprodutiva, empréstimos para clínicas de saúde feminina e engajamento ativo no mercado, Shaber explorou como a alocação de capital

poderia impulsionar mudanças sociais estruturais.

O trabalho culminou com sua coautoria de The XX Edge, um livro que detalha como colocar mulheres nas mesas de tomada de decisões financeiras gera consistentemente retornos mais fortes e resultados sociais superiores, desde salas de reuniões multinacionais até microfinanças comunitárias.

No entanto, apesar das evidências claras que sustentam uma liderança diversificada, uma barreira persistente permaneceu. “Muitas vezes conversávamos com pessoas que diziam: “Eu contrataria mais mulheres, investiria em mais empresas femininas, mas simplesmente não as vejo”, diz Shaber. “Então, quando vim para Portugal, meu marido e eu começamos a pensar em maneiras de retribuir. â

Consultando de perto especialistas locais do setor social em 2023, Shaber identificou a habitação residencial e a retenção de talentos como dois dos obstáculos socioeconômicos mais urgentes que Portugal enfrenta atualmente. “A maioria dos jovens que conhecemos deixaria o país em busca de oportunidades”, observa ela. “Poderíamos fornecer moradia para mulheres em início de carreira, que muitas vezes não têm acesso a recursos como esse, para ajudar a construir um fluxo de talentos que permaneceria e construiria soluções importantes para Portugal?”?

â

A resposta a essa pergunta é a Fundação Futura. Atualmente autofinanciada por Shaber e seu marido, a fundação está reformando um edifício dedicado em Lisboa que servirá como

um centro multiuso.

Projetado especificamente para apoiar mulheres em início de carreira, o centro acomodará 12 bolsistas anualmente quando estiver totalmente operacional, oferecendo moradia junto com um currículo intensivo e interdisciplinar. Dois andares do prédio funcionarão como um espaço comunitário — um clube onde moradores, expatriados e acadêmicos visitantes podem interagir, assistir a palestras e

colaborar com os bolsistas.

Em vez de oferecer uma bolsa acadêmica convencional, a Futura se concentra fortemente no cultivo de habilidades sistêmicas e centradas no ser humano que, segundo Shaber, estão cada vez mais ameaçadas na era digital. No centro dessa abordagem estão o “pensamento futuro”, a capacidade científica de antecipar as necessidades da sociedade de 20 a 50 anos à frente, e a

prática ativa da imaginação.

“É muito engraçado pensar na imaginação como uma habilidade, porque todos nascemos com ela”, observa Shaber. “Mas com tantas ferramentas disponíveis — toda a inteligência artificial que nos inunda agora — é fácil parar de pensar. Se recorrermos à IA para resolver os problemas mais urgentes do mundo, nunca veremos as soluções que realmente nos levarão a

um mundo melhor.

A fundação está testando e refinando ativamente sua metodologia por meio de uma série de “protótipos” em Portugal antes de seu lançamento completo. O primeiro grande teste ocorreu recentemente no Porto por meio de um exercício de engajamento comunitário chamado “Máquina do Tempo”, focado em futuros ecológicos urbanos (“Porto azul verde em 2050"). O evento reuniu cerca de 120 participantes e contou com vozes proeminentes, incluindo a artista de renome mundial Joana Vasconcelos, o pesquisador da Universidade do Porto José Miguel Lameiras e Teresa Vicente, ganhadora

do Prêmio Ambiental Goldman de 2024.

Dentro do evento do Porto estava uma microbolsa reunindo 11 jovens locais para dois workshops de quatro horas sobre alfabetização futura. “Os bolsistas montaram um mapa com a ajuda de todo o público que vamos entregar ao governo local, ao gabinete do vice-prefeito e ao reitor da universidade”, compartilha Shaber.

Workshops piloto subsequentes estão programados para Coimbra em outubro, seguidos por Évora e Lisboa no próximo ano, cada um projetado para aprimorar a forma como os jovens líderes interagem com o público em geral e influenciam as políticas públicas.

Em 2030, Shaber prevê que o Futura opere como um think tank maduro, onde grupos interdisciplinares, reunindo artistas, advogados, cientistas e empreendedores, enfrentam um único grande desafio social a cada ano, produzindo pesquisas acessíveis ao público e estruturas acionáveis.

Ao envolver ativamente mulheres em início de carreira na formulação de políticas públicas e no futuro das comunidades locais, a Fundação Futura pretende ser muito mais do que uma provedora de habitação ou uma incubadora de ideias; ela busca servir como um catalisador para a transformação cívica de longo prazo.

Para Ruth Shaber, reter talentos em Portugal por meio de previsão estratégica é tanto um investimento no potencial humano quanto um imperativo urgente para garantir que o futuro da comunidade seja construído por aqueles que a herdarão.

“Sabemos que essa é uma escala relativamente pequena, mas o poder do pensamento futuro e da imaginação como habilidades é universal”, conclui Shaber. “Se pudermos mostrar que dar às mulheres jovens o espaço e as ferramentas para resolver problemas complexos funciona aqui, teremos criado um modelo que pode transformar comunidades e inspirar políticas públicas em qualquer lugar do mundo.”