Entre as leituras menos animadoras do ano passado destacou-se a série de três partes publicada pela revista *The Lancet* em novembro de 2025 sobre alimentos ultraprocessados. Foram dois anos de preparação e 43 autores, liderados por Carlos Monteiro, da Universidade de São Paulo, o investigador que, de facto, introduziu o termo ao mundo.

A sua revisão sistemática abrangeu 104 estudos de longo prazo. Noventa e dois deles revelaram taxas mais elevadas de doenças crónicas entre as pessoas que consumiam mais alimentos ultraprocessados. A análise conjunta associou-os a doze condições, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, depressão e morte prematura.

Portugal sai-se excepcionalmente bem nas comparações europeias. Um estudo publicado no «European Journal of Nutrition», baseado na base de dados de consumo da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, identificou Portugal entre os países com menor consumo de alimentos e bebidas ultraprocessados entre 22 países, a par da Itália. A média europeia situou-se em cerca de 27 % do consumo energético diário. No extremo oposto da mesma tabela, perto dos 40 %, encontra-se o Reino Unido.

Por uma vez, por outras palavras, Portugal situa-se na parte positiva de uma tabela europeia.

O que Portugal está a fazer bem, principalmente por acaso

Ninguém planeou isto. Foi simplesmente o que aconteceu quando uma cultura alimentar baseada em sopa, leguminosas, peixe e pão demorou mais tempo do que a dos seus vizinhos a ser substituída.

A sopa continua a dar início a muitas refeições portuguesas, e a versão que a maioria das famílias prepara é composta por três ou quatro legumes e um pouco de azeite. O grão e o feijão aparecem nos menus sem que ninguém pense em chamá-los de proteína vegetal. As sardinhas nunca precisaram de uma campanha de marketing. E o mercado municipal, uma instituição que a Grã-Bretanha e a Alemanha praticamente demoliram há décadas, continua a ser o local onde muitas pessoas compram os seus legumes ao sábado de manhã.

Nada disso tem garantias de que vá durar. Todas as forças que alteraram os hábitos alimentares noutros países estão também presentes aqui: as deslocações mais longas, os pais que trabalham ambos, a opção de conveniência barata apoiada por um orçamento publicitário. Investigadores portugueses que trabalham no projeto UPPER têm vindo a acompanhar esta evolução há anos, e a tendência não é ascendente.

Oito palavras da Inglaterra

Tudo isto constitui o contexto para algo que começa a 1 de setembro e que merece atenção, mesmo por parte dos leitores que têm motivos para se sentirem bastante orgulhosos da forma como se alimentam.

O «Whole Plate» é um movimento gratuito liderado pela Whole Food Earth, uma empresa de alimentos integrais sediada em Ramsgate, na costa de Kent. A sua campanha anual, «Whole Plate September», tem início na próxima terça-feira. A filosofia resume-se a oito palavras: «a maior parte do teu prato, na maior parte das vezes».

Seguem-se cinco regras, cada uma com uma margem de erro deliberada.

Se a tua avó não reconhecesse o prato, pensa duas vezes. Cinco ingredientes ou menos, quase sempre. Cozinha mais uma refeição por semana do que cozinhaste na semana passada. Metade do prato deve ser dedicada aos vegetais, sendo que os congelados, enlatados e secos contam tanto quanto os frescos. As guloseimas não são proibidas, desde que sejam feitas com ingredientes verdadeiros e consumidas de forma consciente, em vez de serem tiradas de uma embalagem ao passar por ela.

Quem se inscrever recebe um e-mail curto por dia durante 30 dias, contendo uma sugestão de substituição, uma receita ou uma pequena dica. Não há nada para pagar, nada para medir e nada para encomendar.

O cepticismo é compreensível. A campanha é organizada por uma empresa que vende alimentos integrais, um facto que os leitores podem ponderar como acharem melhor. Por outro lado, o programa não cobra nada nem vende nada, o que não se pode dizer de grande parte do que chega por e-mail nesta altura do ano.

A regra que atravessa fronteiras

A terceira regra é aquela que sobrevive a qualquer travessia de fronteiras. Cozinhe mais uma refeição por semana do que cozinhou na semana passada.

A sua força reside no quão pouco exige. Não há nenhuma versão desta regra que constitua um fracasso digno de preocupação, e uma família que a mantenha chegará ao Natal tendo cozinhado algo em torno de dezasseis refeições adicionais em casa, sem ter abdicado de nada no processo.

Para os leitores que vivem em Portugal, as matérias-primas para isto são mais baratas e de melhor qualidade do que na maior parte da Europa. Um quilo de feijão seco custa muito pouco. O peixe é o peixe. O azeite não é um artigo de luxo. A distância entre a intenção e o jantar é menor aqui do que em Kent, o que será provavelmente a razão pela qual ninguém em Portugal precisou de inventar um movimento sobre o assunto.

Onde encontrar

As cinco regras, a inscrição de 30 dias e o «mural de receitas» — uma coleção pública de receitas caseiras enviadas pelos participantes — estão disponíveis em wholefoodearth.com.

A empresa também gere o «Whole Plate Standard», atribuído a produtores cujos rótulos não incluem nada que um cozinheiro doméstico não reconheça, e um programa de embaixadores para cozinheiros e escritores gastronómicos. O seu próprio negócio começou com produtos básicos a granel: frutos secos, frutas secas e sementes vendidos ao quilo em vez de em saquetas, que é basicamente como um mercado português sempre os vendeu.

A edição de setembro do Whole Plate decorre até ao final do mês. A adesão é gratuita.