Há décadas que vêm do passado e há outras que abrem as portas do salão.

É altura de colocar um par de óculos de aviador espelhados e preparar-se para ver uma perseguição a alta velocidade na televisão. A década de 1970 foi um glorioso motim, vestido de poliéster, onde os carros americanos eram enormes, a moda era mais ruidosa do que uma banda de metais numa lata de biscoitos e os polícias da televisão usavam o fumo dos pneus como forma de comunicação.

Bem-vindos à era da Disco, de Detroit e... da vibe, baby!

Uma era extravagante

Comecemos pelos carros, porque na década de 1970, os carros americanos não eram apenas um meio de transporte; eram personagens por direito próprio. Ninguém "conduzia" para lado nenhum; chegavam, normalmente de lado. Detroit estava no seu auge de extravagância e excesso. Modelos como o Ford Gran Torino, o Pontiac Firebird Trans-Am e o Dodge Monaco eram menos máquinas e mais declarações de intenções. E essa intenção era simples. Queimar gasolina como se estivesse a sair de moda, o que, por acaso, aconteceu durante a crise petrolífera de 1973. Dizem mesmo que a história se repete, porque hoje temos outra crise petrolífera, mas sem o mesmo brilho automóvel!

Os carros americanos dos anos 70 eram simplesmente imensos. Eram os lendários tanques ianques. Não se estacionavam tanto como se atracavam. Os capôs eram medidos em hectares, as saliências traseiras exigiam autorização de planeamento e a economia de combustível? Bem, isso era praticamente inexistente. Mas, oh! O barulho. O trovão de um grande V8 era a banda sonora da época, um rugido basso profundo que sugeria que algo louco estava vivo debaixo do capot. Que melhor palco para estes leviatãs mecânicos do que a era dourada dos programas policiais americanos? A televisão dos anos 70 decidiu, de forma bastante sensata, que o que os telespectadores realmente queriam era dois homens de calças largas a perseguir vilões através de mercados de fruta a grande velocidade. E, muitas vezes, era isso que tínhamos.

Veja-se o caso de Starsky & Hutch, por exemplo. David Starsky (Paul Michael Glaser) e Ken Hutchinson (David Soul) andavam num Gran Torino vermelho vivo, com uma risca branca tão ousada que parecia ter sido aplicada com uma escova de jardinagem. Era menos um carro da polícia e mais uma declaração de guerra à subtileza.

Depois havia Kojak, protagonizado pelo incomparável Telly Savalas, um homem que conseguia resolver crimes, fazer reflexões filosóficas e transformar um chupa-chupa num ícone cultural; tudo isto sem levantar a voz acima de um murmúrio de conversa. As suas perseguições de carro eram menos frenéticas. Ficámos com a impressão de que os criminosos poderiam simplesmente encostar o carro por respeito.

Mas não eram apenas os carros e os polícias; era a cultura que girava à sua volta. Um cocktail inebriante de disco, rebeldia e alfaiataria extravagante. As lapelas eram mais largas, os colarinhos mais altos e as calças mais largas. As camisas eram usadas desabotoadas até um pouco a norte do umbigo, revelando pêlos no peito suficientes para tricotar um casaco de malha. As correntes de ouro brilhavam nas luzes da discoteca como um tesouro num filme de piratas. E quanto às calças quentes? Não é preciso dizer mais nada!

E por falar em clubes noturnos e discotecas (e calças quentes). Se os carros eram o músculo, os programas policiais eram o teatro e a discoteca era a alma, então a banda sonora da década pulsava com as batidas dos Bee Gees e de Donna Summer. Estas lendas transformaram as pistas de dança em arenas cintilantes de auto-expressão e, talvez, de um pouco de desidratação. O filme Saturday Night Fever captou-o na perfeição. John Travolta desfilou pelo ecrã com um fato branco incrivelmente imaculado, movendo-se com uma desenvoltura que sugeria que só ele compreendia o significado da vida numa pista de dança iluminada.

Maior do que a vida

Os anos 70 juntaram tudo isto. Era um verdadeiro buffet de tudo o que era maior do que a vida. Os carros, a moda e os programas policiais não eram fenómenos separados; eram fios de uma tapeçaria gloriosamente garrida. O homem que saía de um Pontiac Trans Am em 1977 não estava apenas a sair de um carro, estava a fazer uma entrada digna de um hino de discoteca. O agente da polícia que se lançava numa perseguição a alta velocidade não estava apenas a fazer cumprir a lei, estava a atuar; o seu veículo era uma extensão da sua personalidade e a sua sirene uma espécie de faixa de apoio icónica.

Créditos: Pexels; Autor: Malcolm Hill;

Claro que, por detrás de todo este brilho e cromado, havia um certo caos. A crise do petróleo era grande, os regulamentos de emissões começavam a estrangular a potência dos V8S de gigawatt e o excesso da época estava à beira da paródia. Mas isso, de certa forma, é o que o torna tão duradouro e tão fascinante.

Em muitos aspectos, nunca recuperámos totalmente disso. Claro, os carros modernos são mais rápidos, mais seguros e muito mais eficientes. Mas falta-lhes a presença teatral dos seus antepassados dos anos 70. Os programas policiais actuais são mais corajosos e complexos, mas não apresentam um carro que pareça ser a sua co-estrela. E isso é uma verdadeira vergonha para mim.

Quanto à moda? Bem, felizmente, aprendemos a abotoar as camisas um pouco mais acima. Mas, de vez em quando, ainda se ouve o ronco distante de um V8 ou se vislumbra uma camisa de colarinho largo numa festa temática. Talvez vejamos uma repetição de Starsky & Hutch e sejamos transportados para uma época em que tudo era um pouco maior, mais barulhento, mais arrojado, mas de alguma forma mais vivo.

Nos anos 70, Detroit dominava as estradas, a discoteca dominava as noites e os polícias da televisão dominavam tudo o resto.

E, sinceramente, não achas que podíamos ter um pouco mais desse entusiasmo? Só o facto de escrever sobre isso já me animou. Espero que a sua leitura tenha feito o mesmo por si?

Quem te ama, querida?