Em 15 de julho, em Gouveia, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, defendeu que a barragem de Girabolhos, na região Centro, é uma infraestrutura “essencial e estratégica” para o país.

“É uma instalação multifacetada, com muitas funções. A primeira é garantir a segurança do abastecimento de água à população, depois a produção e armazenamento de energia e, finalmente, o controle de inundações no Baixo Mondego”, disse o ministro na sessão de lançamento do concurso público para a construção do projeto, que ocorreu na Câmara Municipal de Gouveia, no

distrito da Guarda.

Deficiências técnicas

Agora, Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável (Zero - Associação para um Sistema Terrestre Sustentável) afirma que analisou os documentos do concurso público lançado para a concessão de 65 anos do Projeto Hidráulico Multiuso Girabolhos e concluiu que o procedimento apresenta “fragilidades técnicas, econômicas e legais que seriamente comprometer o interesse público e levantar fortes reservas sobre sua capacidade de atrair investimentos responsáveis

.”

“O Estado pretende conceder um projeto com alto impacto ambiental e financeiro sem demonstrar que constitui a melhor solução para os problemas de gestão da água na bacia do Mondego e sem apresentar nenhum estudo público que suporte sua viabilidade econômica. É um cheque em branco de 65 anos, e a Zero argumenta que o procedimento deve ser suspenso”, explicou

.

Esta organização acrescentou que “a tudo isso se soma uma situação inaceitável em que a APA - Agência Portuguesa do Ambiente é simultaneamente a entidade adjudicante, a beneficiária do pagamento, a autoridade de Avaliação de Impacto Ambiental, a entidade licenciadora e o órgão de apelação - uma promiscuidade de papéis que levanta muitas dúvidas quanto à justiça deste procedimento”.

Sem medidas para inundações

A associação também explicou que o Governo apresentou Girabolhos como uma resposta às inundações no Baixo Mondego, mas alertou que o objeto da concessão “continua a ser um projeto hidrelétrico cuja rentabilidade depende

essencialmente da produção e venda de eletricidade”.

“Os documentos do concurso não estabelecem requisitos específicos em relação ao controle de inundações, nem definem indicadores que permitam avaliar o desempenho da infraestrutura nessa função. Pelo contrário, o modelo econômico do projeto incentiva a concessionária a manter o reservatório o mais cheio possível para maximizar a produção de eletricidade, justamente a situação que reduz a capacidade disponível

para absorção de inundações.”

A barragem de Girabolhos, no município de Seia, será construída em Alto Mondego, numa área que inclui os municípios de Fornos de Algodres, Gouveia e Seia, no distrito da Guarda, e Mangualde e Nelas, no distrito de Viseu.

Desalinhamento de interesses

A

Zero também considerou que há um desalinhamento entre o interesse público e os incentivos econômicos do projeto e disse que o Governo nunca explicou: “como um projeto que foi abandonado pela concessionária anterior, após vários anos de desenvolvimento e dezenas de milhões de euros investidos,

agora se tornou economicamente atraente”.

“Apesar dessa falta de demonstração econômica, o processo licitatório coloca praticamente todos os riscos do projeto na futura concessionária. O contratante arcará com todos os custos da nova Avaliação de Impacto Ambiental, estudos complementares, projeto de execução, licenciamento, construção e financiamento da infraestrutura, assumindo também os riscos associados à evolução do mercado de eletricidade, mudanças hidrológicas decorrentes das mudanças climáticas e restrições ambientais que possam resultar do processo de

avaliação.”

Posição negocial fraca

Zero também menciona que há um alto risco de o processo licitatório não ser bem-sucedido e, se houver apenas um licitante, o Estado pode enfrentar “uma posição negocial extremamente fraca, uma vez que o processo licitatório não estabelece nenhum preço-base ou compensação financeira mínima para a concessão de um recurso hídrico estratégico por 65 anos, sendo o único critério de adjudicação o

valor da compensação oferecida”.

“Com apenas um licitante, há um claro incentivo econômico para apresentar apenas a proposta mínima necessária para vencer o processo licitatório, e o Estado pode acabar cedendo um ativo público de alto valor estratégico por uma compensação muito menor do que a obtida no procedimento anterior”, alertou.