No entanto, a realidade permanece praticamente a mesma: faltam casas, os preços continuam altos demais para muitas famílias e inúmeros projetos ainda aguardam anos para avançar.

Talvez o problema esteja na forma como continuamos a encarar a habitação. Quase sempre a tratamos como uma questão legislativa, ao passo que hoje é principalmente uma questão de capacidade de implementação. Depois de mais de duas décadas ligada ao setor imobiliário, aprendi uma coisa simples: nenhuma lei, por melhor que seja, construía uma única casa. As casas são construídas por investidores, desenvolvedores, arquitetos, engenheiros, bancos, construtoras, trabalhadores e entidades públicas capazes de decidir em tempo hábil, como Oeiras

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A legislação pode ajudar ou atrapalhar. Isso pode criar estabilidade ou incerteza. Isso pode incentivar o investimento ou torná-lo inviável. Mas isso nunca substitui a capacidade de transformar um projeto em um trabalho concluído. E é justamente aí que Portugal continua a falhar. O país não sofre apenas com a falta de capital. Continua atraindo investidores nacionais e internacionais, fundos institucionais, empresas e desenvolvedores interessados no mercado. O problema está na dificuldade de prever quanto tempo levará um projeto para obter todas as autorizações necessárias

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Para qualquer investidor, a previsibilidade é tão importante quanto a tributação. As empresas podem se adaptar às regras exigentes. O que eles dificilmente podem aceitar é a incerteza permanente. Cada mês perdido em uma licença aumenta os custos financeiros, agrava o impacto da inflação na construção e pode transformar um projeto viável em um projeto economicamente impossível

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Isso não significa reduzir os requisitos ambientais, urbanos ou técnicos. Portugal precisa de rigor, transparência e qualidade no planejamento. Mas rigor não deve significar lentidão indefinida. Um sistema eficiente deve ser capaz de analisar, supervisionar e decidir dentro de prazos claros

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Talvez seja hora de avaliar as políticas habitacionais de uma maneira diferente. Em vez de contar quantas medidas foram anunciadas, deveríamos medir quantas casas realmente chegaram ao mercado. Em vez de discutir constantemente novas leis, devemos perguntar quanto tempo um projeto leva desde a primeira ideia até a entrega das chaves.

O mercado imobiliário português mudou profundamente. Tornou-se mais profissional, mais internacional e mais exigente. Mas a máquina administrativa muitas vezes ainda está preparada para uma economia de outra época. Municípios com poucos recursos técnicos, entidades com competências sobrepostas e processos mal coordenados dificultam a resposta ao desafio habitacional

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Portugal não precisa de mais diagnósticos nem de mais estudos encomendados. Já sabemos que faltam casas, que o licenciamento é lento e que a imprevisibilidade afasta o investimento. O que falta é executar melhor.

Porque a moradia não nasce quando uma nova medida é anunciada.

Nasce quando o país consegue transformar boas intenções em casas onde as pessoas possam realmente morar.