Portugal não tem falta de restaurantes internacionais — especialmente no Porto e em Lisboa —, o que reflete a longa história de intercâmbio cultural do país. Visitei uma pequena seleção desses restaurantes e, ao longo do percurso, surgiram algumas questões: será que a cozinha de fusão funciona mesmo? Será que a comida se adapta bem a outras culturas? E será que um chef tem de ser originário da tradição culinária de um país para a cozinhar de forma autêntica? Vamos descobrir. Aqui estão alguns dos restaurantes internacionais mais interessantes do Porto, que vão desde locais modestos de bairro até opções requintadas de alta gastronomia.

Créditos: Imagem cedida; Autora: Karina Janø;

Ondo Korean Kitchen

No Porto, o restaurante sul-coreano Ondo Korean Kitchen está na boca de todos neste momento. Escondido dos cafés um tanto chamativos do Bonfim, numa pequena rua de calçada, encontra-se o Ondo. Depois de se mudar para Portugal, Lydia Lee, nascida na Coreia, abriu o restaurante há quatro anos, tendo sido um dos primeiros restaurantes coreanos no Porto. A comida é autêntica, super fresca e tem um toque caseiro distinto, também conhecido como «comida da mamã».

Lee seleciona pessoalmente todos os produtos, chegando por vezes a visitar quatro fornecedores diferentes para obter a qualidade que deseja. Neste restaurante de ambiente simples, encontramos tanto locais como viajantes, incluindo, nomeadamente, recém-casados em lua de mel vindos da Coreia. No menu, encontrará todos os pratos que espera desta cozinha: bibimbap, frango frito coreano, churrasco coreano, kimchi e sobremesas com matcha e sésamo.

«A comida coreana é muito natural e muito saudável. As avós cozinham com o que têm na horta e preocupam-se com a saúde da família», explica Lee, e continua:

«O bibimbap é uma mistura de todos os pequenos pratos que preparamos. Temos sempre todos os métodos de cozedura numa única refeição — algo frito, algo cozido e assim por diante —, por isso era simplesmente mais fácil misturar tudo com arroz.»
Ela própria prepara todo o kimchi em muitos sabores diferentes, e pode até comprá-lo para levar. «É um pouco como o bacalhau — cada família faz-o à sua maneira. Ontem fiz 75 kg», diz ela a rir, explicando que, na Coreia, todas as casas têm um frigorífico especial para o kimchi, para o manter à temperatura certa.

Lee está ocupada a circular pelo restaurante, cumprimentando toda a gente e a verificar se tudo está como deve estar, por isso deixo-a voltar ao trabalho enquanto saboreio uma porção generosa de bibimbap com tofu e molho de soja caseiro. É fresco, picante e repleto de texturas diferentes. Autêntico, caseiro e saudável, o Ondo é um lugar que transmite uma sensação profundamente pessoal.

Créditos: Imagem cedida; Autora: Karina Janø;

Cusco

Depois do jantar no Ondo, deve deslocar-se um pouco para oeste para tomar um Pisco Sour no bar do Hilton, em Gaia. O seu restaurante no último andar, o Cusco, oferece vistas impressionantes sobre o rio Douro e a icónica Ponte Luís I. O Cusco serve cozinha peruana combinada com ingredientes locais e receitas tradicionais do Porto, a par de influências Nikkei (a tradição culinária dos imigrantes japoneses no Peru). Mas fiquei mais impressionada com os cocktails, confecionados com licores caseiros, do que com a comida. No menu, os hóspedes encontrarão cocktails exclusivos sob o tema «Where Peru Meets Portugal», incluindo um Pisco Sour ao estilo do Porto, a Chicha Morada — um clássico da cultura peruana —, bem como sumos, aperitivos, cervejas peruanas e, claro, uma seleção de piscos, a bebida destilada tradicional do Peru e do Chile. No Cusco, há música e um ambiente descontraído, mas festivo. Nas noites de sexta-feira e sábado, DJs e dançarinos contribuem para o ambiente animado, garantindo que aproveita ao máximo a euforia do pisco.

Créditos: Imagem cedida; Autora: Karina Janø;

Terra

O consagrado Terra, no bairro da Foz, no Porto, serve «cozinha sem fronteiras» há 22 anos, com um menu dividido entre sushi e uma seleção mais ampla de pratos asiáticos. Desde a sua abertura em 2004, o Terra tem sido um dos restaurantes que introduziu a cozinha asiática aos comensais do Porto, numa altura em que o sushi ainda estava na sua infância em Portugal. A cozinha do Terra assenta numa fusão contemporânea que se inspira no Japão, no resto da Ásia, no Mediterrâneo e em Portugal.

Situado num edifício histórico, é um local ideal para um encontro romântico, e a vista sobre os chefs de sushi a trabalhar vai certamente impressionar. A comida é, como hei-de dizer... exatamente como deve ser. Nada é mal preparado e a qualidade é boa, mas, a este nível de preços, poderia ser mais criativa.

Isso poderá estar prestes a mudar com a chegada de dois novos chefs e uma reinvenção dos menus. O chef executivo André Fernandes juntou-se à equipa em maio, e o chef Pedro Gomes irá em breve liderar o sushi bar, sinalizando uma direção mais contemporânea. André Fernandes passou grande parte da sua carreira no renomado Grupo José Avillez, trabalhando em vários dos seus restaurantes mais aclamados, incluindo o Belcanto, com duas estrelas Michelin. Pedro Gomes especializou-se em sushi desde 2012 e trabalhou em alguns dos restaurantes japoneses mais respeitados da Escandinávia, incluindo o Sabi Sushi, em Stavanger, e o Ra Sushi, em Oslo. Ao apostar em ingredientes cada vez mais de luxo, como caviar, caranguejo-das-neves e carne wagyu, o Terra pretende tornar-se um dos principais destinos do Porto para a cozinha asiática. Vamos ficar atentos a este restaurante.

Parte 2, em breve!