Patrícia Maciel é professora associada da Faculdade de Medicina e, desde fevereiro de 2023, diretora do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS). O instituto não é apenas um pano de fundo para o seu trabalho científico. É, à sua maneira, um projeto que ela tem vindo a desenvolver em paralelo há mais de duas décadas.
A escolha que nunca foi realmente uma dúvida
Criada no Porto, filha de dois médicos, Patrícia sentiu desde cedo a atração pela ciência. «Sabia que queria ser cientista desde muito jovem», afirma. «Sempre foi isso.» Gostava dos fundamentos biológicos das doenças, da ideia de compreender o que corre mal a nível molecular. A vertente clínica atraía-a menos. A pressão familiar para estudar medicina existia, diz ela, mas era «benigna». «Eles habituaram-se. Sou bastante decidida e acho que perceberam que eu ia por esse caminho.»
Os seus pais, ambos médicos que mantiveram um interesse ativo pela investigação ao longo das suas carreiras, acabaram por compreender isso bem. O seu avô demorou mais tempo. Engenheiro de profissão, quando a Patrícia lhe disse que estava a tirar a licenciatura em bioquímica, ele disse-lhe: «Essas filosofias não te vão encher o estômago.» Então, um dia, ele recortou um artigo de jornal sobre genética e as suas aplicações na agricultura e entregou-lho com interesse genuíno. «Ele disse: “Já viste isto sobre genética?” Eu respondi: “Ora, sabes que trabalho em genética.” Ele perguntou: “A sério?”» Ela ri-se. «Ganhei muito com ele naquele dia.»
Matriculou-se em bioquímica na Universidade do Porto em 1988. A viragem para a genética humana surgiu mais tarde e, tal como muitas das decisões que viriam a moldar a sua carreira, em parte por acaso. Ao terminar a licenciatura, tinha duas opções em cima da mesa: uma envolvia a genética das castas portuguesas, a outra uma doença neurológica hereditária recentemente identificada, chamada doença de Machado-Joseph. A sua mãe era neurologista. A infraestrutura de investigação biomédica em Portugal era mais forte na área da biomedicina do que na agronomia. Ela escolheu o ramo da biomedicina.
Um verme, uma conferência e uma decisão
O seu doutoramento, concluído em 1998 no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, centrou-se na genética molecular da doença de Machado-Joseph, uma condição neurodegenerativa causada por uma expansão anormal de uma repetição CAG num único gene. A doença é rara a nível mundial, mas desproporcionalmente comum nos Açores, onde se tem transmitido de geração em geração nas famílias. O seu grupo contribuiu para o mapeamento do gene; a identificação final foi feita por uma equipa japonesa. Ela não encarou isso como uma perda. «Tínhamos começado a fazer diagnósticos com as famílias», diz ela. «Cria-se uma ligação. E depois sente-se quase como se lhes devêssemos isso — agora temos de ir resolver isto.»
A questão de como passar do gene para um possível tratamento levou-a a um lugar inesperado. Numa conferência de que mal se lembra, um colega alemão apresentou um modelo da doença de Alzheimer desenvolvido em Caenorhabditis elegans, um pequeno verme transparente com exatamente 302 neurónios, cada um deles mapeado e identificado. O animal portador da proteína tóxica vagueava à temperatura errada, incapaz de encontrar o local onde tinha aprendido a alimentar-se. «Nunca me esqueci daquela imagem», diz ela. «Quero trabalhar com esta criatura.»

Escreveu ao orador, que nunca tinha conhecido, e a colegas nos Estados Unidos que trabalhavam com o mesmo modelo. Chegaram instruções, listas de equipamento e, por fim, um desses investigadores veio passar vários meses no seu laboratório no Porto, ajudando a estabelecer a técnica. «Ele continua a ser o nosso guru do C. elegans», diz ela, décadas mais tarde.
O verme tornou possível testar rapidamente centenas de compostos, sem uma hipótese prévia, para ver o que funcionava antes de avançar para os modelos em ratos, mais lentos e dispendiosos. Essa abordagem levou o seu laboratório a descobrir que o citalopram e o escitalopram, dois antidepressivos amplamente utilizados, reduzem a agregação da proteína mutante e retardam o declínio motor em animais com a doença. O trabalho resultou numa patente europeia. Revelou também que a sinalização da serotonina desempenha um papel na forma como o cérebro elimina proteínas anormais, uma descoberta com implicações potenciais que vão muito além da doença de Machado-Joseph.
A incubadora por trás da sua filosofia de investigação
Antes de se mudar para Braga, Patrícia tinha passado algum tempo num instituto de investigação português onde a cultura da vida científica funcionava de forma diferente daquela com que se tinha deparado no Canadá. Precisava de uma incubadora bacteriana para o trabalho de rotina e fez o que sempre lhe tinha parecido natural: dirigiu-se a um colega numa fase semelhante da carreira e perguntou: «Posso pedir-te a tua incubadora emprestada?» O que se seguiu foi uma espiral burocrática que terminou com o seu orientador a falar com o orientador deste colega, e a Patrícia a ser informada de que só poderia utilizar a incubadora uma única vez.
Este não foi um caso isolado, pois Patrícia também se lembra de quando planeava comprar um microscópio e enviou um e-mail ao instituto a perguntar se mais alguém precisava de um, sugerindo que juntassem recursos e comprassem algo melhor em conjunto. Ninguém respondeu. O seu microscópio chegou e, nessa mesma semana, chegou outro idêntico ao fim do corredor. «Os fornecedores ficaram certamente satisfeitos», diz ela. Dois investigadores, a trabalhar no mesmo edifício, tinham comprado o mesmo equipamento duas vezes sem trocarem uma palavra.
Essas experiências, partilhadas por vários dos colegas que viriam a fundar o ICVS, moldaram tudo o que diz respeito à forma como decidiram construir a cultura do instituto. Decidiram não replicar esse modelo. Desde o início, todo o equipamento do instituto pertencia a todos. «Um investigador que chega hoje tem acesso a tudo desde o primeiro dia», afirma Patrícia. Os custos de manutenção são partilhados por todo o instituto. «É uma política de viver em comunidade», diz ela, «e isso também implica regras.»

A estrutura inicial ia mais longe: não havia grupos de investigação com nomes próprios, apenas três grandes domínios científicos nos quais todos trabalhavam. Os avaliadores externos tiveram dificuldade em lidar com isso. Sem equipas com nomes próprios, diziam eles, era impossível saber se os investigadores juniores estavam a desenvolver carreiras independentes. Desde então, o instituto organizou-se em equipas maiores, mas manteve a infraestrutura partilhada e a cultura aberta. «Começámos numa localização periférica, sem um financiamento avultado», afirma ela. «Mas esta partilha — de recursos físicos e da vida intelectual — fez realmente a diferença.»
Financiamento para recursos, mas não para pessoas
Dirigir o ICVS colocou Patrícia Maciel numa posição que lhe permitiu ver claramente aquilo que ela descreve como o problema estrutural determinante da ciência portuguesa. Os investigadores trabalham agora com contratos de três ou quatro anos. Quando o contrato termina, o ciclo recomeça. A especialização acumulada ao longo dos anos parte com a pessoa que a construiu. «Dou o exemplo aos meus colegas que são médicos no hospital», diz ela. «Imaginem formar um especialista ao longo de quatro anos, vê-lo desenvolver competências reais numa área específica e, depois, ter de o deixar partir e recomeçar com alguém novo. Em qualquer outro setor, isso seria considerado absurdo.» Nos institutos de investigação, diz ela, é considerado normal.
Ela é cautelosa quanto à sua própria posição nesta questão. «Falo a partir de uma posição confortável. Tenho um cargo permanente como docente.» Mas vê o que a precariedade faz às pessoas à sua volta. Um investigador com um ano e meio de um contrato de três anos, com um projeto que mal começou, já sabe que pode não haver nenhum cargo à sua espera no final desse período. «Como é que digo a alguém: “Estás a fazer um excelente trabalho, mas não tenho nada para te oferecer daqui a dois anos”? É muito desmoralizante.» A produção científica, por enquanto, mantém-se. Mas ela vê os efeitos noutros aspetos: na saúde mental dos jovens investigadores, no número de mestres que concluem os seus cursos e entram diretamente no setor privado, em vez de permanecerem no meio académico. «Ainda não vejo isso na qualidade da ciência que está a ser feita. Mas acho que está para vir.»
No laboratório e fora do horário de trabalho
O seu grupo de investigação continua a trabalhar tanto na doença de Machado-Joseph como em perturbações do desenvolvimento neurológico, incluindo a síndrome de Rett e o autismo. Um artigo publicado em 2024 na revista *Nature Medicine*, elaborado no âmbito de um consórcio de 55 investigadores de 19 países, analisou os genomas de mais de 15 000 indivíduos da América do Norte, Central e do Sul e confirmou que a arquitetura genética dos perturbações do espectro do autismo é consistente em populações de diferentes origens ancestrais. Durante anos, os estudos genéticos sobre o autismo basearam-se quase exclusivamente em amostras de origem europeia. Estas descobertas abrem caminho para diagnósticos mais precisos numa gama muito mais ampla de populações.
Fora do laboratório, é mais difícil arranjar tempo livre. Ela dança quando pode, ou faz algo semelhante: aulas de Zumba que oferecem, como ela própria diz, «um pouco de música, um pouco de movimento». É um substituto para os anos em que dançava a sério, entrando e saindo de aulas de dança, passando horas por semana na pista. «O tango foi a única exceção», acrescenta. «A música era tão dramática que, por vezes, saía-se num estado pior do que aquele em que se entrava.» Ela diz que ainda está a tentar retomar a dança.
No fim de contas, temos agora um instituto de excelência com base na comunidade no norte de Portugal, em parte porque Patrícia Maciel, uma vez, não conseguiu pedir emprestado um simples equipamento de laboratório e decidiu, quando surgiu a oportunidade, construir algo que funcionasse de forma diferente.









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